Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 26/06/2011

Viajar de Machimbombo é …

Maravilhas de Moçambique

Quando cruzamos Moçambique de sul ao norte percorrendo cerca de 3.000 Km, os machimbombos foram nossos inseparáveis companheiros de viagem. Este tipo de ônibus que é o principal para não dizer único meio de transporte do país, nos proporcionou a chance de conhecer a África verdadeira: subdesenvolvida, refém das ONGs, selvagem e indômita e livre da ótica dos turistas (exceto nós mesmos) que buscam um leopardo aqui ou um leão ali. O único animal que conhecemos em Moçambique foi o bicho homem e em seu melhor estado: puro e selvagem. Nós simplesmente amamos nossa viagem por este país e por isso decidimos escrever nossa experiência por lá como uma paródia das figurinhas Amar é…

Quem foi criança na década de 80 (principalmente as meninas) sabe bem do que estamos falando. Assim nasceu o post Viajar de machimbombo é…

Relembrando Amar é…

Foram inúmeras as viagens de machimbombos, mas resolvemos contar aqui as duas mais desafiadoras e inusitadas na opinião geral dos amigos e as mais legais na opinião de quem curte uma aventura radical como nós.

O desafio do machimbombo começa no dia anterior a viagem quando vamos até a praça principal do vilarejo para comprar as passagens. Os cobradores vivem dentro dos machimbombos e portanto o atendimento ao público é 24 horas. A passagem é emitida na hora (caso haja disponibilidade) mediante pagamento em espécie. Melhor nem pronunciar as palavras cartão de crédito, pois apesar da população falar português como nós, estas palavras não fazem parte do vocabulário deles. Se tudo der certo você sai com seu bilhete (um papel de pão escrito à mão com a data da viagem, destino final, horário e número da poltrona). Em breve descobrirá que o número da poltrona é meramente ilustrativo.

As saídas são sempre às 5 da manhã (segundo eles para evitar o horário em que o sol é mais intenso, mas em nossas viagens invariavelmente sempre viajamos com o sol do meio dia sobre nossas cabeças), mas pede-se a gentileza de estar no local às 4 da manhã. Viajar de machimbombo é acordar muito cedo.

Ao chegar ao local de saída do machimbombo as 4 da manhã, após percorrer a pé todo o trajeto desde seu albergue na mais completa escuridão começam os preparativos para a viagem. Viajar de machimbombo é se arriscar na madrugada em ruas sem iluminação. Primeiro a acomodação das pastas (bagagem no português local) no teto do ônibus (não há bagageiro), não sem antes pagar por isso. Sim, você comprou a passagem para você e não para sua mochila, esta paga a parte e o dinheiro vai todo para o motorista e o cobrador (eles são bem criativos no quesito “jeitinho moçambicano”). Próximo passo, acomodar todo mundo dentro do ônibus, mais as malas que não puderam ser amarradas no teto. Aqui descobrimos que o número da poltrona foi só uma ironia do cobrador. As fileiras de assentos (não podemos chamar de poltronas) na parte interna são de 4 lugares (dois à direita do corredor, um à esquerda e um assento rebatível no corredor) projetadas para acomodar confortavelmente os franzinos japoneses (os ônibus são importados do Japão após muito tempo de uso por lá). Em Moçambique a matemática se transforma e em 4 assentos viajam 5 corpulentos moçambicanos, sem contar as bem crescidinhas crianças de 12 anos que vão nos colos de suas mães. Viajar de machimbombo é literalmente manter contato com os locais.

Mas finalmente o machimbombo partiu, com uma hora de atraso, pois a negociação de cada passageiro pelo pagamento das “pastas” foi muito difícil. Em algumas horas estaremos em mais uma praia paradisíaca. Ledo engano. Dez minutos após a saída já estávamos parados a beira da estrada, pois o machimbombo havia quebrado. Por favor desçam porque voltaremos à cidade para o conserto e em 30 minutos prosseguiremos viagem, dizia o cobrador.

Minutos após a quebra do machimbombo

Três horas depois todos passageiros já haviam voltado à cidade (a pé, de carona, etc) e esperavam pelo conserto ao lado da oficina. Alguns começaram a pedir a devolução do dinheiro da passagem, mas logo descobriram que grande parte do dinheiro já havia sido gasto no pagamento do combustível da viagem, ou seja, estávamos unidos ao machimbombo na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza até que a morte nos separasse. Viajar de machimbombo é um casamento sem direito a divórcio. As brigas e discussões começaram e um sábio filósofo moçambicano disse uma frase que nos marcaria para sempre: “Onde há fome, não há amizade”. Assim fomos todos almoçar para que a paz voltasse a reinar. Após oito horas de espera, exatamente às 2 horas da tarde o machimbombo retomou sua saga em direção a Beira. A viagem prosseguiu sem muitos percalços até que a noite caiu e descobrimos que nosso possante não possuía faróis. A chuva torrencial começou e o perigo de um acidente era iminente. Por aclamação popular paramos a beira da estrada em um posto de gasolina desativado. Todos simplesmente fecharam as janelas e na mesma posição nada confortável que estavam começaram a dormir. Dormir em uma sauna não é das melhores experiências da vida e também a intimidade era demasiadamente grande para pessoas que conhecíamos a apenas longas e intermináveis horas. Assim resolvemos dormir do lado de fora do machimbombo. A noite foi boa com a tranqüilidade sendo quebrada apenas por alguns desentendimentos do bordel que havia ao lado de nosso abrigo. Viajar de machimbombo é viajar juntos, comer juntos e até dormir juntos.

No dia seguinte após uma razoável noite de sono, as esperanças estavam renovadas. Logo cedo tentamos retomar o caminho de Beira, mas não havia bateria no machimbombo e tivemos que esperar mais algumas horas até que uma nova fosse trazida da cidade mais próxima. O último obstáculo era vencido e finalmente chegamos a Beira às 9 horas da manhã. A epopéia havia terminado 27 horas depois do seu começo e foram percorridos míseros 540 Km. Depois desta viagem temos certeza que plagiamos os moçambicanos na frase: Brasileiro é guerreiro e não desiste nunca.

Nossa segunda aventura digna de ser narrada foi no trecho entre Ilha de Moçambique e Pemba. Existiam duas opções: 1) Ilha de Moçambique – Nampula –Pemba ou 2) Ilha de Moçambique – ponto remoto na estrada – Pemba.

Quem nos conhece um pouco sabe que a opção 2 foi nossa escolha. Era simples. Bastava saltar num ponto especifico da estrada e parar qualquer machimbombo. Simplesmente porque como todos caminhos levam a Roma, naquele ponto da estrada todos machimbombos levariam a Pemba. Tudo ia bem. Saltamos, caminhamos poucos metros e em menos de cinco minutos já havia um machimbombo parado. Foi ai que apesar de toda nossa experiência, nossas línguas nos traíram e fizemos as perguntas erradas. Primeira pergunta: Tem lugar disponível? Machimbombos são mais espaçosos que coração de mãe, sempre há lugar disponível. Como um cavalheiro deixei o melhor lugar disponível para Fabi e me coube sentar em cima do motor. Reclamei com o cobrador que estava muito quente e logo ele conseguiu uma almofada para mim. Aí reclamei que a almofada tinha cheiro de urina, ele mais rápido que John Wayne sacou um frasco de perfume e borrifou na almofada. Logo percebi que qualquer que fosse minha reclamação haveria uma solução e assim me resignei ao sentar no local indicado. Viajar de machimbombo é ter todos seus desejos atendidos.

O fluxo de pessoas nos machimbombos é intenso. Eles param para subida e descida de passageiros a todo instante. Basta um cachorro abanar o rabo a beira da estrada que eles vão logo parando. Assim logo consegui um assento melhor ao lado da Fabi e do motorista. Melhor era o que eu pensava. O pára-brisa do ônibus estava trincado e era suportado por uma estaca de madeira segurada pela Fabi. Em pouco tempo o motorista incomodado pela falta de visão parou a beira da estrada e em pouco tempo víamos pelo retrovisor o Pára-brisa cada vez mais distante.

Pára-brisa retirado, prontos para seguir

A partir daquele momento me senti como Dennis Hopper em Easy Rider, sensação total de liberdade com vento na cara. O fato de estarmos dentro de um ônibus e não em uma Harley era só um detalhe. Viajar de machimbombo é usar óculos de sol como equipamento de proteção individual.

E assim fomos até a Pemba. Entre uma propina e outra paga a um policial rodoviário local, tínhamos acesso VIP a saída do machimbombo pelo buraco deixado pelo pára-brisa.

Resumindo nossos sentimentos. Moçambique é um país encantador e cada minuto de perrengue foi recompensado com paisagens e experiências inesquecíveis. Para nós viajar de machimbombo é viver a África real em sua plenitude.

Veja Também:

Lugares Únicos no Mundo – Arquipélago de Bazaruto – Moçambique

Nosso irmão chinês – Vilanculos – Moçambique

Se lavar sai, né? – Maputo – Moçambique

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Responses

  1. Que viagem hein!…..ao menos podiam se comunicar em português, imaginem isso tudo em outra língua….rs

    • Oi Vanessa,
      a viagem foi difícil, mas uma das nossas preferidas. É assim que gostamos de viajar, conhecendo a realidade de cada lugar independente de como ela seja. Tomando uma frase emprestada do livro “O Safári da Estrela Negra” : tentamos comer como locais, nos transportar como locais e viver como os locais.

      Pra nós vale muito a pena.

      bjs

  2. Maravilha Fabi e Eder principalmente porque não era eu um mísero classe “C” que não teria condições de viajar nem de machibombo. Mas adorei a aventura vivida por vocês. Parabéns mais uma vez pela espirito aventureiro e desbravador.
    Abraço
    João

    • Grande João,
      neste caso devo concordar com você. Moçambique seria um lugar ideal para um bolsa família da vida. Vimos muita miséria, mas ao contrário do que se possa imaginar, um povo muito feliz.
      Foi por lá que vivemos as nossas maiores aventuras e olha que foram muitas.

      O mais importante é que valeu cada minuto.
      grande abraço

  3. Amei o texto!!! Gente, isso é que é perrengue!!! Rsrsrs. O importante é ter história pra contar, né? Bjs, Lu Tesch

    • Oi Lu
      realmente história para contar não nos falta. Algumas já contamos aqui, outras nos Encontros dos Viajantes e ainda nos faltam muitas.
      Mas com certeza você deve ter adorado o post, afinal seu blog se chama perrengueiros.

      bjs

      Eder

  4. Fabi e Eder,
    Mais uma vez parabéns pelo post. Muito bem escrito e adorei as aventuras!!!
    Bjos, Rê Haenel

  5. Muito legal, adorei o post… o conteúdo, a escrita, as fotos… parabéns! Bjs! Juli

    • Oi Juli
      legal que você gostou. Escrever este post foi demais pois pudemos relembrar esta maravilhosa viagem. Acho que por isso o post ficou bom, a viagem foi demais. Lugares inesquecíveis, situações inusitadas, tudo que a gente gosta.
      bjs

  6. Que máximo e que aventura! Eu moro em Moçambique e nunca criei coragem para enfrentar os machibombos (nem as chapas na cidade)…quando crescer, quero ser que nem vocês :o)

    • Renata,

      Para enfrentar os machibombos precisa de um pouco de coragem e muito espírito de aventura.
      Quando você crescer vai participar de mais aventuras do que nós, e virá contar no nosso blog.😉
      Continue sempre acompanhando nosso blog.

      Quatro Cantos do Mundo

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  11. Sensacional! Vocês deveriam escrever um livro contando essas aventuras todas!

    • Olá Jana

      já pensamos sim em escrever um livro, mas falta um detalhe alguém que queira publicá-lo.

      Mesmo assim temos um projetode fazer um livro com fotos e posts do blog pelo Fotolivro.

      valeu

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  16. estou indo para pemba desde maputo semana que vem ver um querido amigo…que na verdade morea em montepues…é pra lá que eu vou..tenho só um mes em moçambique…vou de machibombo…meu amigo falou dois dias de viagem…depois de ler vcs…vou por minimo 4…rsrsrsrs…adorei o relato de vcs..nao precisa dizer que sou feito da mesma materia que vcs…aventura e simplicidade…pàrabens pelo blog!
    abraços
    Augusto Juncal

    • Olá Augusto
      Pemba fica a exatos 2.441 quilômetros de Maputo. Em boas estradas e ônibus novos esta viagem já demoraria dois dias. Nas condições moçambicanas com certeza no mínimo 4 dias.
      Acho que seu amigo disse 2 dias, para te estimular a não desistir da viagem.

      A viagem vai ser dura, mas com muitas histórias para contar.
      Temos certeza que vai adorar a viagem e Moçambique

      abs

      Eder

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  18. […] Viajar de Machimbombo é … […]

  19. […] Saindo de Maputo (capital moçambicana) existem vários ônibus para chegar a Vilanculos. A viagem vai tomar todo seu dia e será extremamente cansativa. São seiscentos e cinquenta quilômetros que podem levar nove ou dez horas. Os ônibus ou machimbombos como são chamados saem sempre em horários bastante peculiares neste país. As partidas ocorrem sempre por volta das quatro ou cinco horas da manhã, sempre depois que o ônibus estiver lotado. Portanto esteja no Terminal Junta bem cedo para garantir um bom lugar, de preferência na janela. Os machimbombos são micro ônibus antigos vindos do Japão ou China com capacidade de cinco pessoas por fileira (um dos assentos é retrátil e rebatido no meio do corredor), sem banheiro e sem bagageiro. Chegar cedo significa conseguir um lugar para sua bagagem em baixo do banco. Caso contrário ela vai no teto do machimbombo. Para saber mais sobre viagens de ônibus em Moçambique leia: Viajar de Machimbombo é… […]

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