Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 11/09/2011

Se lavar sai, né? – Maputo – Moçambique

Bandeira de Moçambique

Nossa estadia em Maputo foi das mais interessantes em nossa jornada africana. A tempo, Maputo é a capital de Moçambique, um país que recomendamos fortemente. A cidade em si não tem nenhum atrativo turístico. Nenhuma estatua do Cristo de braços abertos, nenhuma torre que parece uma estação de extração de petróleo, nenhuma arena antiga onde gladiadores lutavam com leões até a morte. Um olhar desatento não veria nenhuma atração por lá, mas nosso faro para encontrar boas histórias não falhou mais uma vez.

Começamos com o pé direito já na hospedagem. Fomos muito bem recebidos por Jerry e Jane, um casal de meia idade que já havia vivido em Camarões e Indonésia e agora tentam a vida em Moçambique também lecionando inglês. Ótima experiência do Couchsurfing. No primeiro dia (uma segunda feira) Jerry nos convidou para tomar uma cerveja, que logo se tornaram várias. Após duas ou três garrafas mudávamos de bar só para ele nos apresentar melhor a vida noturna maputense. Por volta da meia noite ele resolveu que era hora de balançarmos o esqueleto em uma danceteria. Com nossos esqueletos devidamente balançados por todo um dia de viagem em um ônibus velho cruzando uma estrada esburacada, passamos a vez, mas ele não se fez de rogado. Deixou as chaves da casa com a gente, nos desejou boa noite e pediu um favor: avisa a Jane que vou chegar tarde. Ué, mas já não era tarde? O que pensamos ser um dia de boas vindas se repetiu por todos os dias que ficamos com eles. Jerry baladeiro!!!

Jerry com a camisa do Brasil: nosso anfitrião

Foi através do Jerry que conhecemos vários lugares e pessoas fantásticas na cidade. As atrações antes escondidas começavam a aparecer em forma de histórias de todos os tipos. Afinal de contas, onde Ho Chi Min pode se encontrar com Lênin sem nenhuma cerimônia? Só pode ser em um lugar com muita história pra contar.

Reunião de cúpula comunista: Ho Chi Min, Lenin e eu

Histórias da História de Moçambique. Dos amigos moçambicanos do Jerry ouvimos aos montes: da guerra de independência que terminou em 1975 com a saída dos portugueses e da guerra civil. Histórias das batalhas entre FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) comunista e dona do poder após a independência e RENAMO (Resistência Nacional Moçambicana) capitalista e financiada pelo regime do Apartheid da vizinha África do Sul. Atualmente FRELIMO e RENAMO são os principais partidos políticos do país que tenta consolidar sua frágil e jovem democracia.

FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)

Foi em uma das famosas ruas de Maputo, talvez na Salvador Allende, que comprei a biografia de Samora Machel (Samora Machel: Morte Anunciada), o primeiro presidente do país e que até hoje estampa sua cara em todas as notas de meticais (moeda local). Esta leitura me revelou fatos interessantíssimos. A FRELIMO foi criada em Dar es Salaam (Tanzânia) por Samora e Eduardo Mondlane sob aprovação do então presidente tanzaniano Julius Nyerere de tendências claramente socialistas. Mondlane foi assassinado em 1969 e dizem as más línguas que por próprios integrantes da FRELIMO que o consideravam muito moderado por não aceitar a luta armada contra os portugueses. Em 1986 foi a vez de Samora morrer em um acidente aéreo com suspeitas de assassinato a mando do regime do Apartheid de Peter Botha.

Líder da Revolução, primeiro presidente: Samora Machel

O caótico e encantador mercado local (mercadão) também apresentado pelo Jerry e cheio de anônimos, foi perfeito para garimpar mais histórias, desta vez histórias de vida. Lugar onde ele era mais cumprimentado que o prefeito da cidade, já que comprava muito e nunca pedia desconto. Segundo ele, este era seu carma: ajudar as pessoas. Quem quisesse nos encontrar na hora do almoço era só passar por lá. Comida boa e barata. A tia do prato feito já nos conhecia pelo nome e logo perguntava: o de sempre hoje? E na despedida era sempre: mande um abraço a Jerry. Tia, o de sempre hoje, mas não havia mesas livres. Pedimos licença para sentar com um senhor e nem ligamos para cara de espanto (já estávamos acostumados) que ele fez ao falarmos em português (brasileiro é raridade na África e em Moçambique é mosca branca). Conversa vai, conversa vem, ele nos contou que foi integrante do exército comunista. Mais várias histórias de guerra, mas a que ficou em nossas memórias foi outra. Certa vez ele foi enviado a Ucrânia para um treinamento militar. Ao chegar, as pessoas ficaram muito curiosas com a cor de sua pele negra. Ele mesmo se espantou com tanta curiosidade e descobriu de uma maneira bastante inusitada que eles nem sabiam da existência de negros no mundo. Os ucranianos o tocavam, o esfregavam com suas mãos muito brancas e falavam algo esperando uma resposta que não vinha, pois ele nada entendia. O tradutor logo jogou luz a suas dúvidas. A pergunta que não queria calar era: Se lavar sai, né? Esta não é sua cor original. Histórias que não estão nos livros, histórias de viagens, histórias de nossas andanças por Moçambique.

Mas nem todas histórias são engraçadas. Moçambique tem o quinto pior IDH do mundo. Também vimos a pobreza de muito perto, ao conversar com a faxineira da casa do Jerry. Perguntamos a ela porque se vendia tanto carvão nas ruas. Obviamente não era para fazer churrasco nos fins de semana. Ela somente olhou para o velho fogão a gás da cozinha do Jerry e disse: Vocês não acham que eu cozinho num fogão bonito destes, né? O carvão é o combustível barato e poluente para cozinhar em fogões improvisados no chão, enquanto dezenas de homens brancos dirigem as reluzentes e não menos poluidoras Land Rovers das ONGS que são a maior fonte de divisas do país.

Como diria um grande amigo e viajante dinamarquês que encontramos em nossa jornada: “Sempre procuro por lugares não turísticos. É lá que estão as melhores histórias”. Maputo é a prova viva desta teoria. Uma cidade sem turistas, mas cheias de histórias.

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Responses

  1. Belo post sobre Maputo, mas…tem muito brasileiro aqui sim. Em Moçambique existem 6 mil registrados na embaixada. Abraços

    • Olá Eduardo
      legal que você tenha gostado do post. O que eu quis dizer é que existem poucos brasileiros viajando como turistas por ai. Nós não encontramos nenhum brasileiro viajando pela África e ficamos 4 meses rodando pelo continente.

      Mas tenho certeza que a comunidade brasileira que vive em Moçambique é significativa.

      grande abraço e continue nos acompanhando
      Eder

  2. Hoje eu começei a pesquisar sobre Moçambique e sabia que encontraria informações aqui no blog. Fiquei muito entusiasmado com o país depois que começei a praticar mergulho e soube que é um dos melhores lugares no mundo para praticar o esporte, tendo em vista a fauna exuberante (mantas, tubarões-baleia e outros organismos). Mas também tem todo esse lado cultural e a história do país que são muito interessantes, inclusive as nossas origens coloniais que são comuns. Muito bom o post. Abraço, pessoal!

    • Olá Evandro
      realmente a fauna dos mares de Moçambique é exuberante. Fizemos snorkling no arquipelogo de Bazaruto (fica perto da cidade de Vilanculo) e só da superfície conseguimos ver uma infinidade de peixes multicoloridos, além dos corais que também são lindos.
      Este é um país abençoado por uma belíssima natureza, vale conhecer.

      se precisar de alguma dica é só falar

      abraços
      Eder

  3. Ótimo post!

  4. Gostei muito do post e também do blog, sempre que possível, estarei acompanhando. Abração.

    • Olá Jordy
      ficamos felizes que você tenha gostado do nosso blog. Estamos sempre postando as histórias de nossas viagens mundo afora.
      Continue nos acompanhando.

      grande abraço

      Eder

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  6. Gostei muito do post e enviei para minha amiga brasileira que trabalha há 3 anos em Maputo. Parabéns!

    • Olá Iara
      se você estiver aberta a novas experiências e ao contato com os locais Maputo pode se tornar uma cidade encantadora. Muita gente querendo conversar e contar suas histórias. Esta é a grande atração da cidade, já que pontos turísticos são poucos.

      bjs e valeu pelo elogio

      Eder

  7. Adorei as informações! Estamos indo a Maputo no início de setembro e foi uma grande contribuição. Quando retornar postarei aqui. Abraços.

    • Olá Zita

      espero que aproveite Moçambique tanto quanto nós fizemos. O que parece uma cidade feia e velha em uma primeira impressão, pode esconder muita história e diversões.
      Depois conta pra gente como foi.

      bjs

      Eder

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  9. prezados amigos, estou querendo visitar meu amigo que mora em Maputo. Vou passar 8 dias. Gostaria de saber alguma informações financeiras. Por exemplo o que da para comprar com 44 mil metcais?
    Grato pela ajuda

    • Olá Douglas
      30 meticais é o equivalente a um dólar americano. 44 mil meticais é um bocado de dinheiro. Só para te dar uma ideia de preços segue lista abaixo (preços de 2009):

      passagem Maputo – Tofo = 450 meticais
      Hospedagem para 2 pessoas no Baboozi Guest House = 500 meticais
      Almoço para duas pessoas = 80 meticais

      espero ter ajudado

      abraços

      Eder

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  13. Ola! Estou amando as dicas sobre a Africa! Vou p la em Agosto e estou mega ansiosa. Voces tem o contato desse casal onde ficaram hospedados em Maputo? Vcs sabem se é tranquilo ir da Africa do Sul p la de Ônibus?

    Obrigada!

    • Ola Nathalia
      fomos de ônibus e não tivemos problemas. Só tenha o visto em mãos pois não está mais sendo expedido na fronteira.

      O nome do cara que nos hospedou é Jerry, procura no couchsurfing

      boa viagem

      Eder

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