Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 25/10/2011

Nosso irmão chinês – Vilanculos – Moçambique

Passávamos agradáveis dias do mês de janeiro em uma vila perdida em algum lugar ao norte de Maputo. Por mais de uma semana nossa rotina se resumia a dormir tantas horas quanto o calor sufocante permitisse, comer macarrão ao sugo preparado por nós mesmos na cozinha do albergue e trabalhar duro como fiscais da praia, aliás, que praia, um paraíso no Oceano Índico. Nos recuperávamos de oito dias de Machimbombos e de uma dieta a base de pão com tomate com uma brusca variação para pão com banana. O descanso aqui era fundamental, pois não havíamos percorrido nem um terço do caminho até a divisa com a Tanzânia (nosso próximo destino rumo ao norte africano).

O Índico visto do nosso albergue

Tudo parecia meio parado e monótono, mas entre um cochilo e outro aproveitamos para explorar o local e claro conhecer um pouco mais de Vilanculos e seus habitantes. Lembrem-se: este é sempre um dos principais prazeres de nossas viagens. Conversando com um senhor que vendia esculturas de madeira descobrimos que a praia era exclusiva para nós porque escolhemos a temporada baixa para visitar a região. Nesta época há muita chuva, dizia ele, apesar de não cair uma gota do céu durante todo o tempo que ficamos por lá. Coisas de Moçambique. Também nos contou como passava até dois meses acampado no meio do mato esculpindo a madeira de suas esculturas. Segundo ele é bem mais fácil carregar as esculturas prontas e já bem mais leves que as toras de madeira não trabalhadas.

Não muito longe da praia está o arquipélago de Bazaruto e foi para lá que nós fomos em um passeio de barco à vela com direito a almoço de frutos do mar. O lugar é deslumbrante como podem ver pelas fotos. Areia super fina e branca, mar azul que se confunde com o céu e um dos melhores snorkeling de nossas vidas. Encontramos com o Nemo, a Dorothy e mais uma porção de peixes de todas as raças, tamanhos e cores. Eram tantos que às vezes ficava difícil até para ver a água. Até pensamos em fazer nosso curso de mergulho lá mesmo, tamanha a beleza dos mares da região, mas não nos arrependemos de deixar pro Mar Vermelho no Egito, o curso PADI mais barato do mundo.

Fabi apreciando a beleza de Bazaruto

A história mais interessante deixamos pro final do post. Gastando nosso tempo sentados na areia da praia percebemos olhares curiosos de um grupo de crianças locais. Fizemos sinal para se aproximarem. Eram duas meninas de nove e oito anos e um menino de seis. A primeira impressão foi de espanto por falarmos português como eles. Depois cada vez mais descontraídos se soltaram e já gargalhavam com a gente, quando de repente mencionaram a existência de um irmão chinês. Eu e Fabi logo pensamos: tão pouca intimidade e já estão inventando histórias. E eles firmes, jurando de pés juntos que o irmão chinês não uma fantasia de suas cabeças, nem amigo invisível. Gargalhavam ainda mais com nossas piadas. Vocês têm um irmão chinês, não é? Prazer sou Michael Jackson. A discussão só terminou quando prontamente aceitamos o convite para ir à casa da família e conhecer ao vivo o tal chinesinho.

Os três irmãos com um amigo antes de virem falar conosco

 Fomos recebidos pelo patriarca da família. Nossa conversa sobre os mais variados assuntos foi regada à água de coco aberto na hora pelo filho mais velho. Falamos de economia, negócios, turismo no país, mas o tema número de filhos foi o que causou maior perplexidade de ambos os lados. Se para nós era difícil entender porque ele decidiu ter onze filhos, para ele era inconcebível que após nove anos de casados nós ainda não tínhamos nenhum. A família moçambicana em geral gera muitos filhos porque nem todos sobreviverão e também para assegurar que os pais terão os devidos cuidados na velhice. Um verdadeiro choque cultural, mas com muito respeito de ambas as partes.

Após meia hora de papo fomos direto ao ponto, dizendo: A conversa está muito boa, sua família é muito agradável, mas viemos aqui foi para tirar uma história a limpo. As crianças têm mesmo um irmão chinês? Ele sorriu, fez sinal a um dos filhos e disse: Vai buscar o Wu. Pena que não pudemos filmar nossas caras ao ver um mirrado chinesinho de uns três anos se aproximar. Vocês com certeza iriam chorar de rir.

Passado o espanto e constatado que não havia alucinógenos na água de coco perguntamos ao patriarca: Já percebemos que o senhor leva bem a sério a arte de fazer filhos, mas como se especializou tanto a ponto de conseguir fazer um chinês? Depois das gargalhadas ele explicou tudo tin tin por tin tin.

Wu era seu sobrinho, filho de sua irmã, mas criado no seio da família como o caçulinha mimado. A mãe do Wu era uma moçambicana casada com um professor universitário chinês que leciona e vive na Alemanha. Durante uma viagem de férias a Moçambique para rever a família ela contraiu malária e morreu. O pai professor sem saber o que fazer, propôs ao cunhado (o patriarca) que ficasse cuidando do Wu, pois ele não teria condições devido a uma vida de viagens e compromissos múltiplos. Isso tudo já fazia um ano, mas Wu ainda não falava português e era uma criança muito tímida. Segundo o patriarca aos poucos ele ia se aclimatando. Apesar da história triste a criança era muito bem criada, afinal experiência com filhos não faltava a esta família.

No final ficamos com um sorriso meio amarelo por termos duvidado das crianças, mas quem é que poderia acreditar numa história destas? Isso é o que podemos chamar de globalização: Brasileiros conversando com uma família moçambicana sobre um irmão chinês.

Tem alguma história inusitada para contar? Envie pra gente.

 Veja Também:

Lugares Únicos no Mundo – Arquipélago de Bazaruto – Moçambique

Viajar de Machimbombo é …

Se lavar sai, né? – Maputo – Moçambique

Zanzibar paraíso na Terra


Responses

  1. Bom Dia!
    Historia bem inusitada , más bem interresante de ler, historias diferentes só saberemos se viajar!!!! Oh Coisa boa pegar a Mochila e cair no MUNDOOOO!!!

    Parabens pelo relato.

    Douglas Bonifacio.

    • Valeu Douglas
      vamos cair no mundo e descobrir muitas histórias como esta. Nossa viagem de volta ao mundo foi repleta delas.

      Elas estão por ai esperando para serem encontradas.

      Pé na estrada

      Eder

  2. Esqueci de comentar, mas esse lugar é Bonitoooo demaisss!!!! Quantos lugares nesse Mundãooooooooo

    Douglas Bonifacio.

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  12. […] Para quem não sabe, Moçambique, assim como o Brasil, também foi colonizada pelos portugueses. Dentre as várias heranças deixadas pelos colonizadores, temos o idioma oficial em comum. Este detalhe facilita e muito a comunicação com os locais e torna o aprendizado sobre a cultura local bastante prazeroso. Foi bastante engraçado a cara de surpresa que eles faziam ao ver “gringos” falando português. Leia este post para saber como a interação com os locais pode ser uma experiência única: Nosso irmão chinês – Vilanculos – Moçambique […]

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