Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 06/11/2011

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Museu do Apartheid – África do Sul – Parte II

Dando seqüência a série de lugares que arrepiam os cabelos de qualquer um, contaremos como foi descobrir as barbáries cometidas sob o regime do Apartheid na África do Sul.

Logo ao chegar a Johannesburg fomos surpreendidos, sacando dinheiro no caixa eletrônico, ao saber que o país tem onze línguas oficiais. Entre elas está o Afrikaans. Pelo nome, logo pensamos se tratar de uma língua tribal africana, mas estávamos redondamente enganados. Nosso amigo John que conhecemos pelo Couhsurfing nos explicou que esta é a língua dos descendentes de holandeses e é muito similar ao idioma atualmente falado na terra das tulipas. Este foi o primeiro passo para começarmos a entender o regime de segregação racial.

Bandeira da África do Sul sob o regime segregacionista do Apartheid

Em nossas cabeças nunca imaginamos que a África do Sul tinha sido colonizada pelos compatriotas de Maurício de Nassau. Para nós os brancos colonizadores da região eram súditos da rainha Elizabeth II e ponto final.

Mas foi na visita ao Museu do Apartheid que conhecemos o verdadeiro significado de Apartheid: uma realidade nua e crua que ao mesmo tempo assusta e traz perplexidade. O regime do Apartheid durou 46 anos e só terminou em 1994 com a eleição de Nelson Mandela para presidente. Após várias guerras entre ingleses e holandeses em 1910 foi criada a União Sul-Africana (atual África do Sul). Neste mesmo ano o Partido Reunido Nacional de origem Afrikaans subiu ao poder e iniciou uma política de separação de raças que se tornou oficial em 1948 com a eleição de Daniel François Malan. Segundo o partido: “A política da segregação racial se baseia nos princípios cristãos do que é justo e razoável. Seu objetivo é a manutenção e a proteção da população européia do país como uma raça branca pura e a manutenção e a proteção dos grupos raciais indígenas como comunidades separadas em suas próprias áreas. Ou seguimos o curso da igualdade, o que no final significará o suicídio da raça branca, ou tomamos o curso da segregação”.

Sua eleição selou o fim do regime do Apartheid

Sob esta política todo cidadão pertencia a uma raça distinta: branco, negro, colored (mestiço) ou indiano. Em caso de dúvidas uma comissão formada por brancos dava o veredicto final sobre a classificação de um indivíduo. A distinção entre um negro e um mestiço era simples e usava métodos não muito científicos. Uma caneta era colocada entre os cabelos do indivíduo a ser classificado. Se ao balançar a cabeça, a caneta caísse ao chão este era considerado mestiço, caso contrário era fácil afirmar que se tratava de um negro. Inacreditável, mas verdadeiro.

Apartheid presente na identidade em letras vermelhas: WHITE PERSON

Em 1950 a Lei das Áreas de Agrupamento decretou que indivíduos de raças diferentes não poderiam viver mais no mesmo bairro. A separação além de racial agora era também geográfica. Esta lei levou a divisão de diversas famílias, já que um casal formado por homem negro e mulher mestiça já não poderia viver sob o mesmo teto. Filhos também foram separados dos pais devido à estúpida classificação da caneta. E os absurdos e descalabros apenas começavam.

O governo também reforçou a lei do passe. Algo surreal como ter que portar um “passaporte” para circular pela própria cidade em que mora. Negros circulando em áreas brancas somente se fossem empregados em casas de brancos. A presença de negros nestas áreas sem autorização era passível de prisão. Dá pra imaginar? Algo do tipo: Vamos tomar uma cerveja na Vila Madalena? Desculpe não vai dar, pois eu não tenho autorização para circular por lá. Isso que parece loucura até para Idade Média aconteceu há menos de 30 anos.

Se vocês estão achando demais, esperem por mais esta. Lei de Reserva dos Benefícios Sociais. Parece até algo do tipo Bolsa Família né? Determinava alguns locais públicos de uso exclusivo de brancos. Era comum encontrar em praias, praças, ônibus e até bancos placas com os dizeres: “Net Blankes”, apenas brancos. Além da clara discriminação, foi uma boa desculpa para o governo oferecer serviços diferenciados aos cidadãos. Claro que os de baixa qualidade ficaram reservados aos negros.

Hoje placas como esta, só no Museu do Apartheid

Tipo de serviço perstado aos negros pelo governo

E as leis segregacionistas se multiplicavam como coelhos. O governo tornou ilegal o casamento entre pessoas de raças diferentes. A Lei da Imoralidade foi mesmo muito imoral ao tornar crime relação sexual entre pessoas de raças diferentes.

A lavagem cerebral chegou também à educação. Foi criado um sistema educacional apenas para estudantes negros cujo único objetivo era incutir nas mentes de jovens que estes deveriam ser para sempre trabalhadores braçais.

Claro que toda esta opressão gerou uma reação da população negra. Reação amplamente reprimida pelo governo de minoria branca e que colocou na cadeia Nelson Mandela e matou Steve Biko, líderes dos movimentos anti-apartheid. Tudo isso é passado, mas um passado ainda muito vivo para ser esquecido.

Repressão as manifestações anti-apartheid

Infelizmente tudo que foi criado artificialmente através de “canetadas” não termina com a simples assinatura de revogação das leis conforme comprovamos na vida real. O Apartheid ainda vive no seio da sociedade sul africana. Ele está presente na lotação que tomamos até o museu do Apartheid quando para surpresas de ambos os lados éramos os únicos brancos dentro da van, afinal de contas branco não pega lotação. Ou num culto religioso que nós sem prestar muita atenção nos metemos no lado “errado” da igreja onde só havia negros. Ou num simples comentário segregacionista, mas não racista de nosso amigo ao dizer que passávamos por um bairro branco. Mas o Apartheid não terminou? Nossa pergunta não precisava mais de resposta. Talvez, ainda leve duas ou três gerações para que ele termine.

Veja Também:

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Auschwitz – Polônia – Parte I

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Killing Fields – Camboja – Parte III

Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda – Parte I


Responses

  1. […] Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Museu do Apartheid – África do Sul – Parte II […]

  2. Nossa, chocada de verde e amarelo com este post. A gente sempre sabe que todos esses absurdos existiram, mas visualizar assim de perto é sempre muito impactante! Eu odeio preconceito!!! Pior é saber que ele ainda existe…

    • Olá Julie
      para nós que estamos acostumados com outro tipo de preconceito é bem chocante, tanto que demos várias gafes, mas acredito que estão no caminho certo para chegarem a uma sociedade mais igualitária.
      Se puder leia também o post sobre Auschwitz e o próximo que fecha a série Três Lugares de Arrepiar os Cabelos.

      grande abraço

      Eder

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  5. Também estive na África do Sul em Dezembro e terminei minha viagem com uma visita ao Museu do Apartheid. Conhecer a história é uma coisa. Mas, ver, ouvir, até sentir o cheiro, foi mesmo muito,muito triste. De qualquer forma, um aprendizado. Para nunca ser esquecido nem repetido.

    • Olá Yara
      está foi uma das experiências mais fortes que tivemos em nossa viagem de Volta ao Mundo. Tanto que foi parar na série “Três Lugares de Arrepiar os cabelos” junto com Auschwitz e mais um lugar que o post ainda não foi publicado.

      É muito impactante, mas faz parte da história da humanidade e sempre devemos relembrar para nunca ser repetido como você bem disse.

      grande abraço e continue nos acompanhando

      Eder

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