Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 23/09/2012

No topo da África – KILIMANJARO – Dia 4: Só o cume interessa

Ainda no aeroporto de Guarulhos comecei a ouvir a frase que dá título ao post com um pequeno intervalo de tempo entre as sílabas da palavra cume. Gracinhas de Normando. Nosso quarto dia começou tão cedo, mas tão cedo que quando ele deu o ar da graça já estávamos de pé há meia hora. Despertamos as 23:30 horas do dia anterior para um rápido e leve café da manhã, ou talzvez possamos chamar café da noite. A meia luz das lanternas não deixava o clima mais romântico. Se tudo saísse como planejado assistiríamos o amanhecer no topo.

Como uma cebola (cheio de camadas) pusemos o pé na trilha à meia noite em ponto. De dentro para fora eram: pele, pêlos do peito, camiseta dry fit, segunda pele número 1, segunda pele número 2 (neste caso terceira pele), fleece e casaco corta vento. Um casaco mais pesado se escondia do frio dentro da mochila de ataque, mas pronto para entrar em ação assim que atingíssemos o cume. Da cintura para baixo, duas calças sendo uma delas segunda pele, duas meias de trilha e bota. Do pescoço para cima touca ou balaclava. Dica de diamante: compre uma meia apropriada para neve ou frio intenso. Manter seus pés aquecidos trará um conforto extra.

Será que conseguimos? Parece perto, não?

Em fila indiana seguíamos: Crispine (guia), eu, Normando, Eduardo e Silvian (guia 2) em ritmo pole pole (devagar). O problema é que como qualquer adjetivo, devagar para uns não o é para outros. A cada parada para recuperar o fôlego Crispine perguntava qual era o problema e a resposta de todos era sempre a mesma: falta de oxigênio. Ao mesmo tempo outro diálogo silencioso ocorria . Meus pés gritavam em meus ouvidos: estamos congelando, continue caminhando. Depois da terceira ou quarta interrupção na caminhada decidimos separar o grupo. Eu e Crispine seguiríamos na frente.

Caminhava de cabeça baixa e nas raras vezes que tirava o queixo do peito encontrava ao longe pareciam ser formigas carregando pedras de açúcar luminosas (lanternas) nas cabeças e gravetos (sticks) nas patas, movimentando-se como num balé ritmado. Seriam vaga-migas? Algumas destas formigas caminhavam em minha direção, para elas o sonho do teto da África estava terminando.

Cada um se concentrava da maneira que podia. Normando contava os passos. O ritmo que era leve para mim enquanto estávamos num só grupo ficou pesado depois da divisão. Agora era eu que parava com certa freqüência. Quando o diabinho me tentava a desistir uma descarga de adrenalina tomou conta do meu corpo. Chegamos a Gilman´s Point, a íngreme subida havia terminado a 5.685 metros de altitude. Enquanto isso mais abaixo Eduardo botava pilha em Normando para ele não desistir. Um “congratulations” ainda ecoava no vazio da minha mente quando dei conta que a água não saía da garrafa para minha boca sedenta. Tomei toda água durante a subida? Não. A água congelada no bico da garrafa impedia a passagem da raspadinha (sem groselha) que ficou no fundo. Imaginem tomar chá em uma sauna. Agora imaginem o oposto disto. Foi esta minha sensação.

Com ânimo renovado e o frio intenso a parada foi curta. Ainda estava escuro e mais uma hora e meia de caminhada nos esperava até o tão sonhado Uhuru Peak. Se as subidas íngremes haviam terminado o ar cada vez mais rarefeito misturado ao cansaço dava uma leve sensação de narcose, afinal até formigas gigantes com pedras de açúcar luminosas na cabeça eu já tinha visto. Parei para tomar água mais gelo e não conseguia coordenar minhas mãos ainda atrapalhadas pelas luvas para fechar a mochila. Meia hora e outra parada, agora para comer o que ficou nas mochilas dos meus companheiros. Me virei com algumas bolachas doadas pelos amigos japoneses.

O sol dava o ar da graça

Amanheceu e cada passo me aproximava do objetivo que não pensava ser tão difícil. Para provar nossa obstinação em chegar ao topo teríamos que ultrapassar uma última subida. Num esforço derradeiro deixei Crispine para trás e cheguei a Uhuru Peak. Imóvel, o frio parece ainda mais poderoso. Os poucos segundos de espera para a foto mais alta da minha vida foram suficientes para Crispine aparecer nelas. Hora de voltar. Apesar de nunca caminhar sob gelo ou neve, meus pés já reclamavam novamente. Com o dever cumprido e sob luz solar, a volta foi mais tranqüila aproveitando e fotografando a exuberante beleza local. Em Stella Point (5.739 metros) encontrei Normando e Eduardo para um lanche mais reforçado que bolachas.

Enfim no teto da África

Conseguimos

Com Crispine esperando pelo lanche

Dá para ver que cada ofegada valeu a pena

Os glaciares atestam os -15°C do topo

A 5.895 metros de altitude as nuvens ficam baixinhas

Para baixo todo santo ajuda e ainda bem que eles ajudam porque as pedras soltas são um convite às quedas na íngreme descida de volta ao camping. Eduardo deu um mortal sem nenhuma intenção quando passou por aqui e por sorte saiu ileso. Não sei se Kibo Huts estava mesmo longe (parecia perto) ou se a fadiga alongava o caminho, mas o camping não chegava nunca. Enquanto isso meus amigos desfrutavam os louros da vitória observando um japonês se recuperar agarrado a um balão de oxigênio. Dica de lata: Normando levou uma bomba para abrir os brônquios (bombinha para asmáticos) que não melhorou em nada a falta de oxigênio.

De Gilman´s Point foi só descida

Uma vez em Kibo Huts fui direto para os braços de Morfeu e tive duas horas de sono até a chegada de Eduardo e Normando. Estes, coitados, apesar de seus apelos e até a disposição de pagar um extra para ficar neste camping, tiveram direito apenas a uma breve pausa para um almoço às duas da tarde e sebo nas canelas para Horombo Huts.

Entre subidas e descidas foram mais dez quilômetros que não significam nada, já que as medições são feitas em horas ao invés de quilômetros. O sol queimava a pele e assim mesmo eu sentia calafrios que neste momento pensava ser um resfriado resultado da exposição à intempérie. Caminhava mais rápido que os outros para então parar e ficar como um lagarto exposto ao sol. Tentava extrair energia de onde já não havia, um tipo de fotossíntese humana. Até verde eu já estava e era de cansaço. Cansaço não, a palavra que melhor traduz nosso estado é exaustão. Pensem em uma coisa que adorem fazer. Por exemplo: comer chocolate, jogar futebol, sei lá, qualquer coisa. Agora imaginem fazer isso por dezesseis horas ininterruptamente. Foi isso que fizemos ao parar de caminha somente ao chegar a Horombo Huts.

Nosso reino por uma cama. Descansar era prioridade zero, então hábitos rotineiros como jantar e tomara banho foram facilmente esquecidos para hibernarmos por doze horas até as seis da manhã do dia seguinte.

Dica de diamante: sua força mental será tão ou mais importante que seu preparo físico, mas não exagere na dose e também ouça os avisos de seu corpo para evitar um dedo congelado ou algo mais grave.

Para sempre em nossas lembranças

Veja Também:

No topo da África – KILIMANJARO – Dia 1: Pole Pole

No topo da África – KILIMANJARO – Dia 2: Boa Sorte?

No topo da África – KILIMANJARO – Dia 3: Cadê meu passaporte?


Responses

  1. Uhuuuuu!! Parabéns!! =)

  2. Valeu pelos posts Eder. Ontem dormimos no deserto de Wadi Rum na Jordania em um calor infernal e eis que ao abrir meu e-mail vejo seus post sobre o frio no Kili. A vida é cheia de contrastes mesmo. Abs

    • Olá Daniel

      aproveita a Jordânia porque é um país maravilhoso. Vocês já devem ter passado em Petra. Nós amamos. Agora é so curtir a praia em Aqaba.

      abs

      Eder

  3. Eder os posts estão incríveis, fui uma experiência única na vida, e que ficou ainda melhor com os amigos por perto.
    Vamos marcar a próxima!!!
    Ps. Todos usaram (mais de uma vez) a minhq bombinha de asmático😉

  4. Boaaaa mestre, chegou sao e salvo!!! Belo relato, lindas fotos e maravilhosa experiencia! Parabens

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  8. Fantástico !! Essa é uma experiência que imprime marcas permanentes e só vivenciando para saber bem a dimensão deste relato. Greande abraço e parabéns !!

    • Grande Jodrian

      você pode falar bem do assunto, afinal vivenciou tudo e mais um pouco.

      grande abraço

      Eder

  9. Eu não consigo nem imaginar o que seja essa aventura!!! Eu daqui, só de ler, já está me faltando oxigênioKKK.Parabéns pela coragem e bravura Vania

    • Olá Vania
      foi difícil mas super recompensador. Imagens que ficarão em nossas memórias para sempre.

      Recomendo ir.

      bjs

      Eder

  10. esse é o meu garoto!!

  11. Animal Eder, sua descrição foi maravilhosa. Tenho certeza que não farei esta aventura mas deu uma vontade danada de faze-la. Parabéns por esta realização. Você é meu ídolo de aventuras radicais. Grande abraço do casse “C”

    • João ganhei o dia.

      virei seu ídolo pô. Mas é ídolo mesmo de verdade, tipo Lula e Dilma, rsrsrs. To pensando até em inventar o bolsa família aventura, afinal todo classe C tem direito a uma radicalizada de vez em quando, certo?

      E a Ni gostou do Quênia?

      grande abraço

      Eder

  12. […] No topo da África – KILIMANJARO – Dia 4: Só o cume interessa […]


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