Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 07/10/2012

Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda – Parte I

Em minha última viagem a África em apenas um dia experimentei os sentimentos controversos de felicidade e tristeza ao conhecer Ruanda. Felicidade por constatar que o país se reergueu depois do genocídio e parodiando nosso ex-presidente Lula: “é tão organizado e limpo que nem parece África”. Tristeza por conhecer mais de perto os detalhes de uma das maiores tragédias do mundo contemporâneo no Memorial do Genocídio de Kigali, capital do país.

Antes de descrever os fatos ocorridos durante 100 dias de insanidade e loucura acredito que devemos voltar ao começo da história. Ruanda desde sempre foi um só povo, com um só idioma e uma única história. Os alemães chegaram durante a Primeira Guerra Mundial e em 1923 vieram os colonizadores belgas que trouxeram desenvolvimento da educação, medicina e infra-estrutura em geral. Até então tutsis e hutus era apenas uma classificação sócio-econômica mutável. Em 1932 com a introdução da carteira de identidade a classificação se tornou racial e imutável. Tutsis (15% da população) eram os proprietários de um rebanho de 10 vacas ou mais enquanto os outros 85% seriam hutus. Começava aqui a divisão.

Entrada do Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda

Em 1959 o rei Rudahigwa morre e ocorrem os primeiros massacres contra tutsis. Em 1961 é eleito primeiro ministro Grégoire Kayibanda, fundador do Parmehutu (Partido de Emancipação dos Hutus). Em 1962 chega a independência e com ela um Estado de partido único, repressivo e centralizador. Começa a perseguição e limpeza étnica dos tutsis pelo Estado. Segundo Kayibanda: “Hutus e Tutsis são duas nações em um único Estado. Duas nações que não tem relações ou simpatia, que ignoram seus hábitos, pensamentos e sentimentos como se fossem habitantes de planetas distintos.”

Em 1973 Juvénal Habyarimana (ex-ministro de defesa de Kayibanda) sobe ao poder através de um golpe de Estado. Ele cria o Interahamwe, jovem milícia do poder Hutu. Chegamos a 1990 o terreno para o genocídio estava pronto. Ainda neste ano por pressão internacional principalmente do maior parceiro comercial (França) Habyarimana institui o sistema multi partidário. A maioria dos partidos criados tinha tendências extremistas. Entre 1959-1973 mais de 700.000 tutsis foram exilados do país engrossando as fileiras do RPF (Rwanda Patriotic Front) que em outubro de 1990 já controlava parte do país. Em dezembro de 1990 a revista Kangura publicou os 10 mandamentos Hutu. Um deles era que qualquer hutu que tivesse negócios ou amizade com tutsis era considerado traidor. A intensa propaganda de ódio também se estendeu a Radio Television Libre des Mille Collines.

Homenagem aos mortos na entrada do memorial

Em 1993 o governo ruandês e a RPF assinaram o acordo de Arusha. Ruanda teria um governo de transição que levaria a um governo eleito democraticamente. Tropas francesas sairiam do país abrindo espaço para o exército da ONU (UNAMIR). RPF e o exército do governo fariam um cessar fogo e depois se unificariam. Habyarimana e seus aliados consideravam isso como uma rendição a RPF e assim “melaram” o acordo. Em paralelo o governo selou a maior compra de armas da história (US$ 12 milhões) com uma empresa francesa, tendo como avalista o próprio governo francês.

Jean Pierre, este era o codinome do informante (membro da guarda de segurança do presidente) que em janeiro de 1994 contatou o coronel Luc Marchal (UNAMIR) para em troca de segurança denunciar que 1700 jovens da Interahamwe tinham sido treinados pelo exército ruandês. Os treinamentos seguiram com 300 pessoas por semana. Disse também que a Interahamwe estava identificando todos os tutsis de Kigali para um plano de extermínio de 1000 pessoas a cada 20 minutos. O presidente tinha perdido o controle. Jean Pierre desapareceu sem deixar rastros. O general Roméo Dallaire (chefe da UNAMIR) enviou um fax a Nova York sobre as denúncias e solicitou autorização para uma ampla apreensão de armas e o envio de 5000 homens para evitar a catástrofe. Nada foi feito.

Nova bandeira ruandesa adotada em 2001

Algo grande estava acontecendo. Théoneste Bagasora (oficial do exército) disse após o acordo de Arusha que voltava para casa para preparar o apocalipse. Hassan Ngeze escreveu dois artigos no Kangura prevendo a morte do presidente Habyarimana. Em 6 de abril de 1994 o avião de Habyarimana onde voava também Cyrien Ntaryamira (então presidente do vizinho Burundi) foi derrubado nas proximidades do aeroporto de Kigali às 20:23 horas. Às 21:15 horas estradas foram bloqueadas, casas começaram a ser invadidas, tiros ouvidos. A lista de marcados para morrer tinha sido preparada com antecedência.

O apocalipse de Bagasora estava instalado. Os bloqueios de milícias armadas se espalharam pela cidade com um único objetivo: identificar e matar tutsis. Ao mesmo tempo a Interahamwe iniciou uma busca casa a casa. Os nomes das listas de morte foram os primeiros a serem visitados e mortos em seus próprios lares. Os assassinos usavam facões, porretes, armas e qualquer ferramenta que pudesse infligir o máximo de dor as suas vítimas. Foi um genocídio desde o primeiro dia e nenhum tutsi ficou isento. Os bloqueios foram a principal ferramenta de controle da população. Os tutsis que tentassem passar eram humilhados, espancados, mutilados, estuprados, assassinados e atirados à beira da estrada. Hutus que não obedeciam às milícias eram ameaçados de morte. Morte que era imediata para aqueles que ajudavam os tutsis. Com a morte do presidente assumiu a primeira ministra Agathe Uwiligiyimana que foi executada junto com o marido antes de conseguir dar rumo à nação.

A execução do genocídio foi algo monstruoso e impensável mesmo nos maiores delírios humanos. Mulheres e crianças eram o principal alvo. Os genocidas queriam garantir que não existiria uma nova geração de tutsis. O estupro era usado como arma de guerra e muitas vezes por homens que sabiam ser HIV positivo. Mulheres hutus casadas com tutsis também eram estupradas como punição. Mulheres e crianças muitas vezes eram obrigadas a assassinar amigos, vizinhos e até parentes para logo depois serem mortas. Genocidas torturavam suas vítimas antes de matá-las. Cortavam seus tendões para que não pudessem correr e então eram amarrados e espaçados. Vítimas eram jogadas vivas em valas e então apedrejadas até a morte.

Vista interna do Memorial do Genocídio

Os números do genocídio são estarrecedores mesmo quando comparados ao Holocausto, Apartheid ou o genocídio de Pol Pot no Camboja. Em 100 dias 1.000.000 de pessoas foram assassinadas. Os genocidas matavam um e então outro e outro, dia após dia, hora após hora, minuto por minuto. A cada minuto do dia alguém era assassinado gritando por clemência. Foram 10.000 por dia, 400 por hora, 7 por minuto, mas as mortes não foram o único resultado da barbárie. Dezenas de milhares foram torturados, mutilados, estuprados. Outras dezenas de milhares sofreram cortes de facões, ferimentos à bala, infecção e fome. Houve um rompante de ilegalidade, saques e caos. A infra-estrutura foi destruída, o governo desmantelado, lares demolidos e pertences roubados.

300.000 órfãos e 85.000 crianças que passaram a ser chefes de família. Milhares de viúvas estupradas e abusadas sexualmente ainda viram seus filhos assassinados. Muitas famílias foram dizimadas sem ninguém para lembrar de suas mortes. Ruas cheias de corpos com cachorros comendo a carne podre de seus próprios donos. O país cheirava a morte. Os genocidas tiveram um sucesso em seus objetivos que ninguém jamais imaginaria. RUANDA HAVIA MORRIDO.

Veja Também:

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Killing Fields – Camboja – Parte III

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Museu do Apartheid – África do Sul – Parte II

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Auschwitz – Polônia – Parte I


Responses

  1. Não sei nem sequer comentar a postagem sobre Ruanda, é triste e ao mesmo tempo uma história descontolada, é o que achei. Os números de pessoas òrfãos, estrupos, crianças e mulheres morta etc são altos D + em relção ao tamanho do país. É triste realidade.

    • Walter

      algo que deve ser lembrado para que nunca mais aconteca, como o Holocausto e outras tragedias humanas.

      para refletir

      abs

      Eder

  2. Impressionante! Como o ser humano chega a tal ponto, jamais entenderei! Valeu por dividir Eder, me faz pensar muito sobre tudo…

    • Grande Riq

      algumas coisas nao entenderemos nunca mesmo. Mas se o post te fez pensar, ja valeu a pena ser escrito.
      abs

      Eder

  3. A situação na Africa, em geral é muito similar. A colonização alterou os habitos e costumes das populações, resultando em africanos sem pátrias. São povos na mâo dos interesses econômicos, manipulados.
    Vcs já leram “Os meninos perdidos do Sudão” ? A história se repete.

    • Ola Luiza
      totalmente de acordo. Sao amontoados de tribos sob a bandeira de um unico pais. Ja reparou como as fornteiras entre os paises sao linhas retas na Africa. Nao sao rios ou montanhas que separam um do outro, mas tratados entre colonizadores.

      Fica a dica do livro “Os meninos perdidos do Sudão”. Vou tentar encontrar.

      abs

      Eder

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  13. […] Este passeio geralmente é organizado pela empresa de overland. Para entrar em Ruanda é necessário visto que deve ser solicitado com antecedência. Saiba como obter seu visto para Ruanda aqui. A grande atração do país infelizmente é a recente história do genocídio cometido pelos hutus contra os tutsis que foi bem retratado no filme Hotel Ruanda. Você terá a oportunidade de visitar uma igreja que foi palco de um dos massacres, o museu do Genocídio e o verdadeiro Hotel Ruanda que inspirou o filme. A história é das mais tristes do mundo, mas vale para conhecer a História da Humanidade. Contamos um pouco do nosso passeio no post Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda – Parte I. […]

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