Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 17/11/2013

Culinária pelo mundo, um passeio por diferentes culturas – África

Neste post continuaremos a abordar as curiosidades da culinária que encontramos pelo mundo. Mais uma vez os temas de relevância serão pratos bizarros, diferentes ou nojentos, maneira que as pessoas cozinham e hábitos de higiene ou falta dela. Se o continente africano não é repleto de comidas nojentas como o asiático, foi aqui que que encontramos os costumes mais diferentes quando se trata da maneira que as pessoas cozinham.

África

Este continente pode ser dividido em norte da África (região do Saara) e África subsariana, também conhecida como África Negra. As regiões tem algumas características em comum, mas também muitas diferenças entre elas.

Mukimo e chapati, comidas muito comuns na África

Mukimo e chapati, comidas muito comuns na África

No norte do continente estivemos na Tunísia, Marrocos e Egito, todos países de população predominantemente muçulmana. A religião acaba por trazer alguns hábitos que são bastante curiosos para nós, não muculmanos. Apesar da escassez de água da região eles se lavam antes todas as orações que acontecem cinco vezes ao dia. Dizem que devem estar limpos de corpo e alma para se conectar com Deus. Até ai concordo plenamente, mas causa estranheza grande parte da população deixar este saudável hábito de higiene de lado antes das refeições que geralmente acontecem apenas três vezes por dia. Mais estranho ainda se pensarmos que eles dispensam o uso de talhares e comem com as mãos, hábito idêntico ao da África subsariana. Conforme citado no post O Número 2 ao redor do mundo nesta região eles usam a mão direita para comer e a mão esquerda para se limpar.

Ainda sobre o tema higiene temos uma história de causar calafrios até nos mais desencanados, onde o ditado quem não tem cão caça com gato é bastante apropriado. Aconteceu quando passamos uma noite no Saara tunisiano com nossos anfitriões: o povo beber. Após uma tarde e noite bem agitadas e divertidas quando conhecemos um pouco mais dos costumes, hábitos e música deste povo, despertamos na manhã seguinte já com um sentimento de tristeza pela despedida, não sem antes passar por uma experiência gastronômica um tanto inusitada e exótica. Para café da manhã tivemos pães frescos à moda berber, preparados na hora. Ingredientes para a massa: somente água e farinha tudo misturado em uma bacia que um dia foi prateada, mas que estava negra de sujeira somada a mão do cozinheiro que tinha afagado o camelo segundos antes. Mas até ai sem problemas, afinal pão é assado e o calor mata todas as bactérias. Assado? Mas assado onde no meio do deserto? Nem idéia? Pois é, nós também não. Nosso guia acendeu uma fogueira na areia do deserto. Quando o fogo se extinguiu ele fez um buraco na areia e adivinha onde foi parar a massa de pão. Exatamente onde vocês pensaram. O forno para assar o pão era um buraco coberto com a própria areia quente. Por incrível que pareça a massa não ficou crua e a quantidade de areia que ingerimos foi muito menor do que se pode imaginar.

Pão quentinho saindo do forno

Pão quentinho saindo do forno

Já no Marrocos, mais exatamente em Marrakesh, na praça Jemma el Fna encontramos as comidas mais bizarras do norte da África. Começamos pela harira, uma sopa pesada que é mais do que uma refeição. Chamamos de sopa, mas é tão grossa que parace mais uma papa. Ela leva carne de carneiro, grão de bico, lentilhas, ervas aromáticas e temperos. Para fugir do frio que fazia foi uma ótima opção.

Fabi se aquecendo do frio com a harira

Fabi se aquecendo do frio com a harira

Na barraca ao lado você pode provar os tradicionais scargots, herança da colonização francesa. Eles ficam todos num panelão e de quando em quando são regados com água quente. Basta cutucar o fundo da concha e levar a lesma a boca, dizem que é uma delícia.

Scargots, no mínimo estranhos

Scargots, no mínimo estranhos

Para quem é mais corajoso, uma barraca a dez metros vende cabeça de bode assado. A cabeça é assada por inteiro com cérebro, olhos e tudo que se tem direito. Vai encarar?

Apesar de morto ainda sorrindo

Apesar de morto ainda sorrindo

Já na África subsariana o que mais nos espantou foi o hábito de se cozinhar no chão. Este costume está arraigado em todos os países exceto a África do Sul. Aqui abro um parentêses para repetir uma frase de um guia queniano que conhecemos: “África do Sul não é África.” Das pesquisas de campo que fizemos nos quatro meses pelo continente constatamos que este hábito está intimamente ligado a pobreza destes países e ai se explica a África do Sul ser a exceção. Grande parte da população de Moçambique, Zâmbia, Botswana entre outros não tem dinheiro para comprar um fogão. Como os fogões são escassos, também não existe gás disponível para venda a preços acessíveis a população mais pobre. Somente descobrimos isto tudo ao chegar em Moçambique, onde graças ao couchsurfing pudemos ter um conversas mais íntimas com a população local. Logo que chegamos ficávamos espantados com a quantidade de carvão sendo vendido nas ruas. Ainda ignorantes sobre a situação, pensávamos: como os moçambicanos apreciam um churrasco. Afinal em nossas mentes carvão está intimamente ligado ao churrasco.

Venda de carvão nas ruas de Maputo, Moçambique

Venda de carvão nas ruas de Maputo, Moçambique

Outro ponto em comum de todos os países da região é o prato típico local. Neste caso nem a África do Sul foge a regra. A feijoada deles é uma mistura de sal, farinha de milho e água em forma de uma massa do tamanho de um bola de bocha. Eles retiram pequenos pedaços da massa e moldam em forma de bolinhas menores para então mergulhá-los num molho de tomate apimentado que na maioria das vezes também é temperado com stew, que é outra unanimidade da região. A receita é a mesma em todo sub continente, o que varia de um país para outro é o nome do prato. Em Moçambique é chamado de chima, na África do Sul pap, bogobe em Botswana, sadza no Zimbabue, na Zâmbia leva o nome de nshima, quase o mesmo nome que é conhecida no Malawi: nsima. Mais uma vez a popularidade do prato tem a ver com questões econômicas. Os ingredientes são os mais baratos que se podem encontrar, o modo de preparo é extremamente simples e apesar de ser pouco nutritivo, dá a sensação de enchimento e saciedade. Particularmente não gostamos nada da ugali.

Ugali, pap, chima, sadza, bogobe, nsima, nshima. O nome muda mas a receita não

Ugali, pap, chima, sadza, bogobe, nsima, nshima. O nome muda mas a receita não

Apesar dos países terem um prato nacional em comum, todos também tem suas particularidades e pratos bizarros. Na Namíbia o lanche da tarde favorito local é o biltong. Biltong são tiras de carne seca em forma de tiras que mais parecem cordas. Um tanto indigesto para nosso paladar acostumado com pão com manteiga para o lanche.

Biltong para o lanche da tarde?

Biltong para o lanche da tarde?

Foi na Namíbia também que experimentamos carne de Kudu e de springbok. Para quem não conhece são os animais selvagens do continente da foto abaixo. Escutamos ser uma carne bastante saudável já que tem baixo teor de gordura. A academia das savanas impede que a gordura se acumule. Eles têem que fugir de leões, leopardos, cheetas o tempo todo.

Springbok a esquerda e Kudu a direira

Springbok a esquerda e Kudu a direira

Em Botswana provamos bigatos. Para falar a verdade é proteína pura e mão tem gosto de nada. Por isso mesmo não é bom nem ruim, mas para os mais frescos é um desafio e tanto.

Bigatos, da mão direto pro estômago

Bigatos, da mão direto pro estômago

Em Moçambique, um país com mais de três mil quilômetros de costa, o que não poderia faltar é peixe. Mas a combinação de peixe com a falta de geladeiras criou um prato bem nojento: peixe seco preto. A foto abaixo mostra que ele não é atraente visualmente. A sorte de todos é que foto não tem cheiro, uma mistura de fragrância de gambá com aroma de rosas do pântano.

Peixe seco preto de Moçambique

Peixe seco preto de Moçambique

Outro prato sempre presente nas paradas de machimbombos (ônibus) é o Mac Donald´s moçambicano, o verdadeiro fast food. Em saco plástico, próprio para viagem, tudo junto e misturado frango com batata frita. Bastava parar e lá vinham os vendedores abrindo a janela do machimbombo oferecendo seus saquinhos de frango com batata. Também tinha castanha de cajú e refrigerantes. Aliás, se na Ásia encontramos a Fanta Sarsi, a África é o paraíso das Fantas exóticas: abacaxi, maracujá e limão são alguams delas.

Fantas dos mais variados sabores

Fantas dos mais variados sabores

Por fim chegamos ao Quênia, o último país que visitamos no continente. Já fartos de tantos safáris resolvemos ficar alguns dias descansando antes de partirmos para nossa aventura pela Ásia. Neste período conhecemos todos os restaurantes populares de Nairobi. Fabi costumava dizer que ao meio dia só dava a gente e os ofice boys da cidade nestes restaurantes. No cardápio nomes como: pilau, mukimo, chapati, ugali e matumbo. Fomos na sorte. No caso do matumbo foi no azar. O prato é tripa de bode, popularmente conhecido no Brasil por buchada. Na fome a Fabi ainda comeu um pouco, mas a maior parte ficou mesmo no prato.

Prato de matumbo

Prato de matumbo

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Responses

  1. Matumbo não dá, hein? Melhor o escorpiãozinho crispy da Khao San!

    • Fala Jr.
      se soubéssemos o que era antes de pedir acho que a gente não encarava, mas na fome e com o prato já pago foi para noestômago, eplo menos parte de dele.

      grande abraço

      Eder

  2. Caramba mestre, que saudades de tudo isso!!! Ugali foi o que bateu mais forte no meu coracao!!
    E saudades de voces tambem! Ja estou em SP! Quero ver voces e to dentro do prox encontro tbm!
    Absao

    • Fala grande

      também estamos com saudades. Queremos te ver. Hoje já é sexta, nos vemos amanhã no Encontro.

      grande abraço

      Eder

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  4. Meu Deus, vcs são fortes.
    Perdi a chance de ler isso antes do almoço. Teria economizado umas calorias… hahaha

    • Ola Andreza
      muitas vezes a necessidade faz o ladrão, mas na maioria destes casos a curiosidade é que bateu forte mesmo para experimentar as iguarias.

      Pra gente viajar é isso: viver por alguns dias como vivem as pessoas locais.

      bjs

      Eder

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  6. Meu próximo destino será África do Sul, não vejo a hora de me aventurar nesta nova terrinha!!! Ótimo blog, já estou seguindo, aproveite e siga o meu tb🙂 Abraço!

    • Ola Cris
      a África do sul é incrível, mas se quer mesmo aventura sugiro visitar os países vizinhos. Moçambique é um prato cheio para as maiores aventuras de sua vida.

      boa viagem

      Eder

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  11. Nossa, acho que eu não ia conseguir comer nada. Abraço!

    • Ola Márcia
      também tem umas comidas mais normais.

      Eles comem muito frango frito

      Não morreria de fome com certeza

      bjs

      Eder

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