Publicado por: Quatro Cantos do Mundo | 17/05/2015

Casa Milá (La Pedrera) – Barcelona – Arquitetura Espetacular

Não tem como falar de Arquitetura Espetacular sem falar em Gaudí. Acredito que ele ainda vai aparecer muito nesta série. Não sou arquiteto, nem tenho a pretensão de me fazer conhecedor do tema, mas de beleza eu entendo e na minha modesta opinião Gaudí é o Pelé da arquitetura. Suas obras são de fazer uma pontinha de inveja até em Niemeyer. Minha primeira impressão ao ver de perto a Casa Milá foi um misto de raiva pela minha ignorância (como não sabia da existência de tamanha beleza antes) e espanto com o que parece ser um constante movimento das formas curvilíneas. Você tem a sensação que as paredes e esculturas irão te tocar a qualquer momento. Tivesse chegado ao local após um happy hour com certeza colocaria a culpa de tanto movimento na cerveja. Mas no primeiro horário da manhã pude constatar que o prédio parece mesmo ter vida própria, diria quase um ser vivo. Uma anêmona balançando seus tentáculos ao sabor das ondas do mar.

Vista fronta da Casa Milá ou La Pedrera (foto do site Wikipedia)

Vista fronta da Casa Milá ou La Pedrera (foto do site Wikipedia)

Construída entre os anos de 1906 e 1910, este foi último trabalho civil de Gaudí. Na época gerou muita controvérsia, pois sua fachada de pedras ondulantes e sacadas de ferro forjado retorcido não foram bem aceitas pela sociedade conservadora que a apelidou de La Pedrera (A Pedreira).

As polêmicas sacadas de ferro retorcido

As polêmicas sacadas de ferro retorcido (foto do site Wikipedia)

Desde 1984 faz parte da lista de Patrimônios Mundiais da Unesco. A Casa Milá foi construída para o casal Roser Segimon e Pere Milá. Pere Milà i Camps era um empresário interessado em artes e entretenimento. De uma família burguesa e bastante rico, especialmente após seu casamento com Roser Segimon i Artells. Milá queria se destacar da burguesia de Barcelona. Ao visitar o parceiro de seu pai no negócio de cânhamo, Josep Batlló, durante a construção da Casa Batlló (outra obra que pode entrar para a lista da Arquitetura Espetacular), ele conheceu Gaudí e garantiu ao arquiteto que seu próximo trabalho seria especialmente para ele.

Do telhado da Casa Milá dá para ver ao fundo outra obra prima de Gaudí: A Sagrada Família

Do telhado da Casa Milá dá para ver ao fundo outra obra prima de Gaudí: A Sagrada Família

Milá comprou a casa na esquina da Passeig de Gràcia com Provence em julho de 1905 e em setembro do mesmo ano Gaudí foi contratado para tocar a obra. Decidiram pela demolição do edifício existente, em vez de reformá-lo, como tinha sido feito no caso da Casa Batlló. O edifício foi concluído em dezembro de 1910 e em outubro de 1911 Milá se mudou para lá. Em 1940 Pere Milá morreu e sua esposa Roser Segimon vendeu a propriedade em 1946, mas continuou a viver no piso principal até sua morte em 1964. Em 24 de julho de 1969 a obra de Gaudí recebeu o reconhecimento oficial como um monumento histórico-artístico. Após várias mudanças no projeto de Gaudí e um grande desgaste por falta de manutenção adequada, em 1987 o trabalho de restauração e limpeza da fachada começou após a compra do edifício pela Caixa de Catalunha.

O prédio tem 1.323 m2 por andar em um terreno de 1.620 m2. Gaudí começou os primeiros esboços em sua oficina na Sagrada Família, onde ele concebeu esta casa como uma curva constante, tanto dentro como fora, incorporando múltiplas soluções de geometria formal e elementos de natureza naturalista.

 O Pátio

Casa Milá é o resultado de dois edifícios que são estruturados em torno de dois pátios que fornecem luz para os nove níveis: cave, piso térreo, mezanino, andar principal (ou nobre), quatro andares superiores e um sótão. A cave é a garagem, o andar principal a residência dos Milá (um apartamento de 1.323 m2) e o restante distribuído ao longo de 20 apartamentos para alugar. O esquema resultante tem a forma de um assimétrico “8” por causa da diferente forma e tamanho dos pátios. No sótão foram alojadas as áreas de lavandaria e de secagem, formando um espaço de isolamento do restante do prédio e determinando os níveis do telhado. Uma das partes mais importantes do edifício é o telhado, coroado com claraboias, saídas de escada e chaminés. Todos estes elementos construídos com calcário, mármore quebrado ou vidro têm uma função específica de arquitetura. No entanto, elas se tornaram esculturas reais e integradas ao edifício. A construção é uma entidade única em que a forma do exterior continua para o interior. Gaudí queria que as pessoas que morassem nos apartamentos conhecessem uns aos outros e, portanto, havia apenas um elevador forçando as pessoas a se comunicar uns com os outros em diferentes andares.

Estrutura

Casa Milá tem uma fachada de pedra auto sustentada apoiada por vigas de ferro curvados. Este sistema de construção permite, por um lado, grandes aberturas na fachada que dão luz para os apartamentos e, por outro, a estruturação livre dos diferentes níveis de modo que todas as paredes podem ser demolidas sem afetar a estabilidade do edifício. Isso permite que os proprietários modifiquem o layout interior das casas sem problemas. Gênio é gênio.

Fachada

A fachada é composta de grandes blocos de pedra calcária do Garraf Massif provenientes da pedreira Villefranche. Os blocos foram cortados para acompanhar as ondulações do edifício. A fachada é dividida ao meio como se o revestimento de pedra calcária se movimentasse como ondas para esquerda e direita da fachada. Do sexto andar para cima a fachada muda e os diversos buracos mais parecem escotilhas de navio. E por fim temos o telhado.

A fachada em forma de ondas

A fachada em forma de ondas

Hall e pátios

O edifício tem uma solução completamente original para que o hall de entrada e pátios sejam iluminados e arejados favorecendo a circulação de pessoas no prédio sem a necessidade de luz artificial durante o dia.

O formato da construção garante iluminação natural para todo o prédio durante o dia como pode ser visto na foto

O formato da construção garante iluminação natural para todo o prédio durante o dia como pode ser visto na foto

Imagem noturna do pátio aberto (foto do site Wikipedia)

Imagem noturna do pátio aberto (foto do site Wikipedia)

Interior e portões

Pinturas cobrem as paredes com acesso protegido por um portão de ferro gigante de design atribuído a Jujol. Durante a construção apareceu um problema com relação a garagem já que a nova invenção do automóvel encantava a burguesia. O futuro morador Felix Anthony Meadows, proprietário de Linera industrial, solicitou uma correção na garagem porque o seu Rolls Royce não poderia entrar. Gaudí concordou em remover um pilar na rampa que dava acesso à garagem. Assim Félix que estava estabelecendo um escritório de vendas e fábrica na rua Fontanella  poderia sair para ambos os lados do prédio com seu carro.

Para os andares da Casa Milá, Gaudí usou um modelo de formas quadradas de piso de madeira com duas cores. Para o pavimento hidráulico usou peças hexagonais de motivos oceânicos e azuis que tinham sido originalmente concebidos para a casa Batlló, mas que não tinham sido utilizadas.

O sótão

Como na Casa Batlló, Gaudí usa a técnica do arco da catenária como estrutura de apoio para o telhado. O sótão, onde a lavanderia está localizada, é uma sala arejada apoiada sob um teto de 270 abóbadas parabólicas de diferentes alturas e espaçadas por cerca de 80 cm. O telhado se assemelha tanto as costelas de um animal enorme, como a palma de uma mão, dando ao telhado uma forma muito pouco convencional semelhante a uma paisagem de colinas e vales. A forma e a localização dos pátios foram concebidas com arcos mais altos quando o espaço é mais estreito e arcos mais baixos quando o espaço é mais amplo. Não há simetria alguma neste edifício.

A famosa técnica do arco da catenária (foto do site Wikipedia)

A famosa técnica do arco da catenária (foto do site Wikipedia)

Telhado e chaminés

Sem dúvida a cereja de um bolo delicioso. Assim como a cereja, o telhado obviamente também fica na parte de cima e é o toque especial do edifício. A obra de Gaudí no telhado da La Pedrera foi uma coletânea de sua experiência no Palau Güell, mas com soluções que foram claramente mais inovadoras, desta vez criando formas e volumes com mais corpo e mais destaque.

Isso é um telhado? Não. É um telhado de Gaudí

Isso é um telhado? Não. É um telhado de Gaudí

Na cobertura há seis claraboias/saídas de escada (quatro das quais foram cobertas com cerâmica quebrada e algumas que terminam em dupla cruz típica de Gaudí), vinte e oito chaminés em vários agrupamentos (como as projetadas para Casa Batlló) contorcidas para que a fumaça saia melhor, duas aberturas meio escondidas cuja função é a de renovar o ar do edifício e coroando quatro cúpulas na passarela que circunda este castelo de sonhos. As escadas também abrigam os reservatórios de água; alguns deles são em forma de caracol. Até caixa d´água é diferente por aqui.

Modelo de chaminé retorcido para melhor saída de ar

Modelo de chaminé retorcido para melhor saída de ar

O telhado de La Pedrera por onde se pode caminhar, é chamado de “o jardim de guerreiros” pelo poeta Pere Gimferrer porque as chaminés parecem estar protegendo as claraboias.

Os guerreiros de Pere Gimferrer por todo telhado

Os guerreiros de Pere Gimferrer por todo telhado

Mais guerreiros nos vigiando

Mais guerreiros nos vigiando

Guerreiros de olho na Fabi

Guerreiros de olho na Fabi

Acho um pecado chamar estas obras de arte de chaminé. Tenho certeza que Papai Noel se negaria a entrar por uma delas com medo de quebrá-las.

Papai Noel jamais desceria por esta obra de arte

Papai Noel jamais desceria por esta obra de arte

Escultura ou chaminé? Eu fico com a primeira opção

Escultura ou chaminé? Eu fico com a primeira opção

Todas as chaminés/obras de arte passaram por uma restauração radical, com a remoção: de chaminés adicionadas nas intervenções pós Gaudí, antenas de televisão e outros elementos que degradaram o espaço. A restauração trouxe de volta o esplendor para as chaminés e as claraboias que estavam cobertas com fragmentos de mármore e azulejos de Valência quebrados. Uma das chaminés foi coberta com pedaços de vidro. Dizia-se que Gaudí fez isso no dia após a inauguração do edifício aproveitando as garrafas vazias da festa. A restauração se deu com as bases de garrafas de champanhe do início do século XX.

Cacos de vidro das garrafas de champagne da festa de inauguração

Cacos de vidro das garrafas de champagne da festa de inauguração

Móveis

A decoração do interior do edifício foi alterada várias vezes, tanto a pintura quanto o mobiliário. Gaudí, assim como tinha feito na Casa Batlló, desenhou o mobiliário especificamente para o andar principal. Era parte do conceito “artwork” do modernismo em que o arquiteto assume a responsabilidade por questões globais como a estrutura e a fachada, cada detalhe da decoração, mobiliário, design e acessórios, tais como lâmpadas, pisos e tetos. Este foi outro ponto de atrito com a Sra. Milá. Ela reclamou que não havia parede reta para colocar seu piano Steinway, que gostava de tocar muitas vezes e muito bem por sinal. A resposta de Gaudí foi contundente: “Então toque violino”. O resultado dessas divergências foi a perda do legado decorativo de Gaudí, como móveis do piso principal que foram distribuídos pelo proprietário quando Gaudí morreu. Alguns permanecem em coleções particulares, algumas peças como uma cortina feita de carvalho de 4 metros de comprimento por 1,96 metros de altura você pode ver no Museu do Modernismo Catalão.

Fabi admirando o mobiliário

Fabi admirando o mobiliário

Semelhanças construtivas

Dizem que a inspiração de Gaudí para La Pedrera foi em uma montanha, mas não há consenso sobre qual foi realmente o modelo de tanta inspiração. Joan Bergós pensava que o modelo eram as montanhas Prades. Joan Matamala diferentemente pensou que o modelo poderia ter sido Saint Miquel del Fai, enquanto o escultor Vicente Vilarubias acredita ter sido inspirado pelas falésias Torrent Pareis em Menorca. Outras opções incluem as montanhas de Uçhisar na Capadócia já que Gaudí visitou a área em 1885, fugindo de um surto de cólera em Barcelona. Algumas pessoas dizem que o layout interior da pedreira vem de estudos que Gaudí fez de fortalezas medievais. Imagem que é reforçada pela semelhança de chaminés e dos telhados “sentinela” com um grande capacete.

Grandes capacetes bem de perto

Grandes capacetes bem de perto

Críticas e controvérsias

O estilo pouco convencional do edifício tornou-o alvo de muitas críticas. Ele ganhou o apelido pejorativo de “La Pedrera”. A Casa Milá apareceu em várias revistas satíricas. Joan Junceda apresentou-o como um bolo de Páscoa tradicional por meio de desenhos animados em Patufet. Joaquim Garcia fez uma piada sobre a dificuldade de definição das varandas de ferro forjado em sua revista. Proprietários de imóveis no Passeig de Gracia ficaram zangados com Milá e deixaram de cumprimentá-lo argumentando que o edifício estranho de Gaudí reduziria o preço dos imóveis na área.

Os problemas administrativos

Casa Milà causou alguns problemas administrativos também. Em dezembro de 1907 a Prefeitura parou a obra no edifício por causa de um pilar que ocupou parte da calçada não respeitando o alinhamento de fachadas. Novamente em 17 de agosto de 1908, mais problemas ocorreram quando o edifício superou a altura prevista e as fronteiras de seu canteiro de obras em cerca de 4 metros quadrados. A Prefeitura deu duas opções: uma multa de 100.000 pesetas (cerca de 25% do custo da obra) ou a demolição do sótão e do telhado para diminuir sua altura. A disputa foi resolvida um ano e meio mais tarde em 28 de dezembro de 1909, quando a Comissão certificou que o edifício era monumental e, portanto, não era obrigado a ter uma estrita conformidade com os estatutos.

Concursos

O proprietário apresentou-o no concurso anual de edifícios artísticos do Conselho da Cidade, mas neste ano duas obras foram escolhidas e nenhuma delas era a Casa Milá. Segundo os jurados uma fachada que não estava totalmente acabada não poderia ser considerada no concurso.

Desacordos no projeto

As relações de Gaudí com Roser Segimon deterioraram-se durante a construção e decoração da casa. Havia muitas discordâncias entre eles, um exemplo foi a virgem de bronze del Rosario, que Gaudí queria colocar na frente do edifício em homenagem ao nome da proprietária (Roser Segimon) e que o artista Carles Mani i Roig iria esculpir. A estátua não foi feita, embora as palavras “Marian Ave gratia M completo Tecum Dominus” foram de fato escritas na parte superior da fachada. Os desentendimentos contínuos levaram Gaudí ao tribunal contra Milá para ganhar seus honorários. A ação foi ganha por Gaudí em 1916 e ele doou as 105 mil pesetas que ganhou para caridade, afirmando que “os princípios são mais importante do que dinheiro.” Depois da morte de Gaudí em 1926, Roser Segimon livrou-se da maior parte do mobiliário que Gaudí tinha projetado e instalou novas decorações no estilo Luís XVI. Quando La Pedrera foi adquirida pela Caixa da Catalunha algumas das decorações originais ressurgiram na restauração. Quando começou a Guerra Civil em julho de 1936 os Milá estavam de férias. Alguns pisos do edifício foram coletivizados pelo Partido Socialista Unificado da Catalunha e os Milá foram forçados a fugir para área sobre o domínio de Franco depois de salvar algumas obras de arte.

As informações deste post foram retiradas do site Wikipedia e também coletadas durante nossa visita a Casa Milá.

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