Publicado por: Quatro Cantos do Mundo | 10/03/2019

Como é criar os filhos em Barcelona – Espanha

Depois de um ano e meio de Barcelona podemos dizer que estamos plenamente adaptados e então chegou a hora de fazer uma grande avaliação em relação as diferenças que observamos na criação de nossos filhos. Saímos do Brasil por diferentes motivações pessoais. Podemos dizer que a o balanço é altamente positivo, apesar de existirem alguns contras. Já sabíamos que o mundo não é perfeito, mas até agora está valendo a pena a mudança.

Começamos pelo idioma, ou melhor dizendo os idiomas. Em pouco tempo eles aprenderam dois novos idiomas: castelhano e catalão. A mais velha aprendeu ambos em surpreendentes três meses. Isso quer dizer que eles serão fluentes em três idiomas? Não eles serão nativos em três idiomas. Sabe quando você preenche ficha em empresa solicitada por recursos humanos. Quando chega no item idiomas, você tem vários campos para escolher. Primeiro vem o regular, um degrau acima está o bom, depois fluente e lá no topo vem o nativo. Sim eles marcarão esta resposta para pelo menos três idiomas. Sem contar que devido à proximidade com outros países fatalmente acabarão aprendendo mais idiomas, como o inglês e francês. Aliás eu já tento ensiná-los, falando em inglês com eles em casa. Mas para mim o mais importante é saber que é provado cientificamente que falar dois ou três idiomas traz muito benefícios a seu cérebro. E para quem está se perguntando qual a vantagem de falar catalão? Como diz um amigo meu: serve para viver em Barcelona, quer coisa melhor que isso.

Não um, mas dois idiomas a mais

É cria-los na diversidade. Esta é outra palavra muito importante na criação de nossos filhos. Valorizamos o respeito ao diferente pois, viajamos o mundo por um ano e meio e se não vimos de tudo, vimos muito coisa. Gostaríamos de dar a nossos filhos a oportunidade de conhecer pelo menos uma parte do que vimos pelo mundo. Em Barcelona, uma cidade cheia de imigrantes como nós, a diversidade é bastante presente e respeitada no dia a dia. O maior exemplo desta diversidade foi quando Noah viu pela primeira vez uma mulher de burca no supermercado. Era época de Halloween e ele não teve dúvidas, gritou: – Mãe um fantasma. E saiu correndo atrás dela para puxar sua burca. Agora parece engraçado, mas foi a oportunidade que Noah teve de vivenciar na prática a diversidade e aprender como respeitá-la após a conversa que tivemos com ele. Outros exemplos: na escola dos meus filhos existem mais crianças negras do que na escola que eles estudavam no Brasil, apesar da população negra da Espanha ser infinitamente menor que a do Brasil. Também existem chineses, paquistaneses, marroquinos, brasileiros como nós e espanhóis de outras regiões. Todos convivem dentro de suas diferenças sem maiores problemas. Minha filha tem amigas catalãs, espanholas de outras regiões e amigos estrangeiros como ela. Isso tudo é possível porque a imensa maioria das crianças estuda em escola pública. Assim não existe a divisão que ocorre no Brasil em que o filho de quem tem melhores condições econômicas estuda em escola particular e quem não tem a mesma condição estuda na escola pública. Este fato ficou bastante evidente quando a escola convidou os pais para falarem às crianças de suas profissões. Tinha engenheiros, garis, pedreiros, policiais, cozinheiros e por aí vai. A escola representa todo o espectro da sociedade (diversidade) e não apenas parte dela. Sem falar de como outros temas importantes na diversidade são tratados por aqui, como por exemplo: casamento de pessoas do mesmo sexo onde os espanhóis são o quinto povo europeu mais favorável (terceiro entre os jovens), aceitação de um muçulmano em sua família onde os espanhóis são o sexto povo europeu mais aberto a um novo membro muçulmano (quinto entre os jovens). Quer saber quão liberais e abertos a diversidade são os espanhóis e outros povos europeus? Clique na pesquisa. Se quiser apresentar a diversidade ao seu filho de forma lúdica recomendamos a leitura do livro Tudo bem ser diferente do autor Todd Parr, um dos nossos favoritos aqui em casa.

São todos estes e mais diversidade ainda

É criá-los em segurança. Este é um assunto que faz muita gente sair do Brasil assim como nós. Depois de sofrer com a violência de uma cidade como São Paulo, viver na Espanha é como estar no paraíso. Segundo o Wikipedia a taxa de homicídios por cem mil habitantes no Brasil é de incríveis 21,7 o que coloca o país entre os primeiros deste triste ranking. Na Espanha a mesma taxa cai para 0,69 o que a coloca no lado de baixo da tabela, com índices melhores até que alguns países escandinavos. Mas melhor que a segurança é a sensação de segurança. Não sei se me entendem? É voltar para casa caminhando pelas ruas de Barcelona tarde da noite com nossos filhos sem ter que correr ou olhar para trás a cada segundo ou atravessar a rua pois alguém vai cruzar por você. Isso literalmente não tem preço. Sim, aqui tem batedor de carteira no metro lotado. Se bobear eles te furtam, mas não tem a violência de roubos a mão armada. Esta sensação de criar seus filhos em segurança vale mais que tudo para nós. E a segurança se estende a um espectro mais amplo da palavra. O trânsito é mais seguro com 3,7 mortes por cem mil habitantes contra 23,4 do Brasil. É a segurança de contar com seguro desemprego por até dois anos em caso de demissão. É a segurança de saber que enquanto for residente vai contar com assistência médica pública gratuita de qualidade. É algo que tem que ser vivido, pois é difícil explicar em palavras.

É criá-los com saúde pública. Apesar de muitos espanhóis reclamarem da saúde pública daqui eu particularmente não tenho do que me queixar. Muitos deles pagam plano de saúde particular o que na minha opinião é um desperdício de dinheiro. A primeira vez que fui no hospital infantil dos meus filhos eu me beliscava para ter certeza que não estava sonhando. Parecia que eu estava no Fleury. Tudo novo e impecável. Livros e brinquedos para as crianças do lado de fora dos consultórios e um atendimento de primeira. Mas eu desacreditei mesmo, foi quando a enfermeira ligou para Fabi dizendo que ela tinha esquecido de levar a Luna para tomar vacina e que as vacinas não poderiam ficar atrasadas. Posso dizer que foi surreal. O Noah já levou pontos no supercílio e no queixo e deslocou o braço duas vezes. Sempre brincamos que ele já testou muito bem o sistema de saúde local e que o mesmo foi aprovado com louvor. Para nós, adultos o sistema também funciona muito bem. Na única vez que fiquei doente aqui fui atendido na emergência em apenas 15 minutos e sai com a receita de um antibiótico para comprar na farmácia. Acostumado com o Brasil, pensei, agora morre uma grana. A conta foi de dois euros. Não errei na digitação não, o remédio é subsidiado e eu paguei míseros dois euros por um frasco de antibiótico. O stress de ficar sem plano de saúde privado no Brasil é coisa do passado. A certeza de boa saúde aos meus filhos a baixo ou nenhum custo tranquiliza muito os pais. Mas como eu disse no começo do texto nem tudo são flores. Aqui todos, incluindo os jovens, fumam muito e nós desde já fazemos a cabeça dos nossos filhos contra o tabaco. Também a saúde bucal deixa a desejar e um bom dentista tem que ser pago a parte de forma privada.

A recepção do hospital

e para não dizer que estou exagerando dá uma olhada na tomografia computadorizada

É criá-los compartilhando cada momento juntos. Uma de nossas queixas no Brasil era o tempo ou a falta dele para compartilhar momentos com a família. Aqui as coisas são mais tranquilas e temos muito mais tempo para estar em família. Fato: aqui ninguém trabalha depois do horário do expediente. Às seis da tarde cai a caneta e o trabalhador se transforma em abóbora. Isso significa que você pode chegar em casa a tempo de brincar com seus filhos, conversar sobre como foi o dia na escola ou fazer outras coisas que te der na telha. No verão quando escurece ainda mais tarde o tempo parece não ter fim. E em muitas empresas o expediente se encerra as três da tarde durante o verão. Ou seja, qualidade de vida em família é importante para os espanhóis. As mães e pais com filhos menores de 12 anos têm direito a jornada reduzida, saem as três da tarde todos os dias. O fato de não ter que perder horas no trânsito também ajuda. Eu por exemplo demoro vinte minutos caminhando de casa até o trabalho. No dia da apresentação de final de ano na escola da Amélie eu assisti ao coral do qual ela fazia parte as duas da tarde e voltei para o trabalho. Coisa que nunca poderia ocorrer no Brasil para imensa maioria das famílias. O fato é que hoje temos uma relação ainda mais estreita com nossos filhos do que tínhamos no Brasil.

Cada vez mais sempre juntos

É cria-los em outra cultura. Cultura é uma das poucas coisas que quanto mais melhor. Hoje as crianças têm duas culturas para chamar de suas. Elas comem arroz com feijão, mas também comem pão com tomate. Em casa tem pão de queijo, mas não dispensamos uma tortilla. Elas agora acreditam no Tió e nos Reis Magos, mas não deixaram de acreditar no Papai Noel. Eles continuam a jogar futebol, mas agora também esquiam. Estamos muito felizes de proporcionar a eles duas culturas diferentes que lapidarão a formação deles como seres humanos.

Agora eles comem pão com tomate

mas sem esquecer nosso pão de queijo

É criá-los sem a família por perto. Isso não é necessariamente um problema para nós, já que no Brasil toda nossa família vivia a seiscentos quilômetros da cidade onde morávamos e invariavelmente a saudade era atenuada por contatos através da tecnologia disponível nos dias de hoje. O que mudou foi que agora o seiscentos viraram quase nove mil quilômetros, mas felizmente o whatsapp funciona a qualquer distância. Na prática continuamos sem os avós ou tios para cuidar das crianças enquanto o casal poderia ir ao cinema por exemplo. Deve ser por isso que depois que a mais velha nasceu só voltamos ao cinema uma única vez. O padrão enquanto casal sem filhos era uma vez por semana. Sentimos ainda mais a falta da família por perto pois há uma forte cultura local em que os avós (yayos por aqui) cuidam dos netos pequenos enquanto os pais trabalham ou saem para se divertir. Para quem achou que só tinha prós.

É criá-los nas ruas. É incrível como as pessoas ocupam o espaço público em Barcelona. As ruas e praças são uma extensão de sua casa. Parques para crianças existem um em cada esquina e eles são super equipados com brinquedos que atraem a atenção até dos adultos. Conheça os melhores parques de Barcelona aqui. A prefeitura ajuda promovendo a cultura na rua. Todo fim de semana existe alguma programação de eventos nas ruas e Barcelona. Festas então é o que eles mais gostam. Dia de Reis é dia de festa. Chegou a primavera, mais festa. Sem contar que cada bairro tem sua própria festa local com muita música, dança e comida e bebida. Há sempre um pretexto para festejar. Dessa maneira conseguimos dar aos nossos filhos um pouco de nossa infância no interior que foi toda passada na rua, livres e sem amarras. TV e jogos eletrônicos são muito pouco usados por aqui. Enquanto em São Paulo eles passavam os dias trancados em um condomínio, aqui criança tem que gastar energia. Tudo isso só é possível devido a segurança citada nos parágrafos anteriores. Cito dois exemplos práticos. Fiquei intrigado com a atitude de uma amiga brasileira que mudou faz pouco tempo para Barcelona. Estávamos no parque e ela não desgrudava os olhos do filho que brincava com a Amélie. Quando o moleque falou que ia pegar um chocolate quente distribuído na festa de Reis aí ela surtou de vez. E me disse: – Mas você vai deixar a Amélie ir sozinha para fila, não é perigoso? Aqui eles são livres e mais independentes, ela ainda vai se acostumar. Nós mesmos ficamos horrorizados quando chegamos e percebemos que crianças a partir dos nove anos vão sozinhas para escola. Sim sem supervisão nenhuma dos pais. Parece surreal, mas este padrão deveria ser o normal.

Com este tipo de parque para que vídeo game

É criá-los com mais responsabilidades. Aqui a diferença social é muito, mas muito menor que no Brasil. Mais exemplos. A Fabi pirou quando viu que o gari do nosso bairro tomava café da manhã no bar (aqui não existe a entidade padaria como em São Paulo) todos os dias. Algo inimaginável no Brasil. Outra coisa quanto maior o salário por aqui, maior a tributação de impostos. Assim a diferença salarial entre quem ganha mais e quem ganha menos é muito pequena e este fato geram algumas consequências. Uma delas é o baixo índice de criminalidade (segurança novamente e os temas se interligam), afinal porque roubar se a qualidade de vida é ótima trabalhando. Uma outra consequência é que ninguém pode pagar uma empregada doméstica. Mas o que isso tem a ver com responsabilidades. Tudo. Como as famílias não tem ninguém para fazer o trabalho doméstico por eles, os filhos desde cedo tem que ajudar nas tarefas da casa. Em nosso lar todos levam seus pratos para pia após as refeições inclusive a menor de dois anos. Todos guardam suas próprias roupas nos respectivos armários, arrumam suas mochilas da escola e obviamente recolhem seus brinquedos. A mais velha também ajuda a tirar pó dos móveis. Tem até uma tabela de quais tarefas domésticas podemos delegar aos filhos segundo sua idade.

Lista de tarefas domésticas sugeridas conforme a idade aqui na Espanha

Como havíamos mencionado no começo do post vemos muito mais vantagens do que desvantagens em criar nossos filhos em Barcelona. E vocês, leitores, concordam conosco? Discordam? Deixem sua opinião, faça do blog uma plataforma de interação.

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Responses

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  8. Olá pessoal! Vivi em Barcelona de 1986 a 1988. Estudei aí os cursos de Tercer Ciclo como chamavam. Sofri muito preconceito, isso q sou branca e biotipo de europeia. Fico feliz q os catalães evoluíram.

    • Ola Fátima
      acredito que as coisas mudaram bastante neste tempo. Nunca sofremos nenhum tipo de preconceito por aqui. As gerações mias jovens são ainda mais abertas como você pode ver na pesquisa de diversidade que coloquei no post.

      obrigado por compartilhar sua experiência
      abs
      Eder

  9. […] como nós tem filhos? Então leia nosso post Como é criar os filhos em Barcelona – Espanha. Aqui descrevemos as inúmeras vantagens de criar seus filhos em Barcelona. Mas não são só […]

  10. […] Como é criar os filhos em Barcelona – Espanha […]


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