Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 20/10/2013

Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocidio – Kigali – Ruanda – Parte II

Este post  como o próprio título menciona é uma continuação do primeiro post da série: Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda – Parte I. Sugerimos primeiro a leitura da parte I no link logo acima para um melhor entendimento da História.

Lugares Sagrados

Pessoas buscavam refúgio nas igrejas que já não eram santuários de segurança. Os genocidas invadiam as mesmas e massacravam milhares de uma só vez. Os crentes perdiam suas vidas amontoados em poças de sangue.

Tortura

Os genocidas mutilavam suas vítimas antes de assassiná-los. Estas tinham seus tendões cortados para evitar a fuga. Então amarrados esperavam para serem estuprados e mortos por facões. Famílias eram obrigadas a assistir seus parentes serem torturados, estuprados e mortos. Vítimas eram jogadas ainda vivas em fossos de excrementos com profundidade de dez corpos e se debatiam até a morte. A morte era agonizante, dolorosa e humilhante.

Entrada do Memorial do Genocídio em Kigali

Entrada do Memorial do Genocídio em Kigali

Responsabilidade Internacional

Os genocidas tinham o controle do país. Era uma guerra civil. General Dallaire responsável pela missão da ONU no país pediu 5000 homens para evitar o genocídio, ao invés disso a ONU diminuiu o contingente para 270 homens com atuação reduzida. As únicas tropas que alcançaram o país antes do fim do genocídio foram os franceses da Operação Turquesa e mesmo assim apenas para criar um área livre de violência no sul do país facilitando a fuga dos genocidas para o Zaire e não para evitar o massacre. As tropas das Nações Unidas só chegaram ao país após a vitória da RPF (Rwanda Patriotic Front) em julho. Em maio o conselho de segurança da ONU decidiu enviar 5500 homens, mas estes só chegaram a Uganda(país vizinho) mais de um mês depois. A ONU falhou mais uma vez e o mundo assistiu ao massacre de mais de um milhão de pessoas.

Resistência ao Genocídio

Resistência em Bisesero

Os perseguidos lutavam pela vida como podiam. Tutsis se refugiaram nas montanhas para formar uma resistência aos genocidas. Quando atacados eles gritavam, batiam bumbos e latas. Os genocidas usavam granadas, munição pesada, foguetes e a resistência lutava com pedras e flechas. Desalojados das montanhas os tutsis seriam presas fáceis e isso aconteceu quando a Guarda Presidencial chegou a Bisesero. Quando as tropas francesas chegaram, os poucos sobreviventes que restavam nas montanhas foram avisados que estariam em segurança para descerem e tão logo o fizeram foram massacrados pela Interahamwe (jovem milícia do poder Hutu). Dos 50.000 tutsis que buscaram refúgio nas montanhas apenas 1.000 sobreviveram para contar a história.

Crise dos Refugiados

Com o genocídio perto do fim, o caos reinou pelo país. Pessoas fugiam por diferentes motivos. Genocidas fugiam do avanço das tropas da RPF. Vítimas fugiam para as zonas liberadas pela RPF. Milhares de hutus fugiram com medo da vingança que poderia ocorrer. Campos de refugiados se espalharam pelo Burundi, Tanzânia, Uganda e Zaire com um número superior a 2 milhões de refugiados. Estima-se que dois terços da população do país foi desalojada.

Busca

Um grande número de vítimas foi separada de seus familiares e eles não sabiam se estes estavam vivos ou mortos. Crianças perderam seus pais. Foram registaradas pelo ONU 37.000 crianças sem pais ou parentes. A maioria não esperava encontrar sobreviventes e realmente não encontraram.

Os genocidas falharam em seu objetivo de eliminar por completo a população tutsi. Depois do genocidio restaram 100 mil viúvas. Cinco anos após o fim do massacre um terço das casas do país eram comandadas por mulheres sem marido.

Os orfãos se multiplicaram. Os orfanatos não eram suficientes para acolher tantas crianças e a solidariedade dos sobreviventes foi fundamental para acolher crianças em suas casas que eram meros parentes distantes e muitas vezes completos estranhos a família.

A tragédia documentada, interior do Memorial

A tragédia documentada, interior do Memorial

Consequências a longo prazo

500 mil mulheres foram estupradas e contraíram AIDS. Muitas morreram das consequências da doença, outras simplesmente porque não tiveram acesso a medicamentos anti virais que por ironia foram disponibilizados a seus estupradores refugiados em Arusha.

Os custos de exumação e identificação de cadáveres era muito alto para uma população que mal tinha fundos para subsistência. Décadas depois ainda são encontradas valas comuns com milhares de corpos.

O trauma será levado por muitas gerações.

Justiça

Em novembro de 1995 foi estabelecido o Tribunal Internacional para Crimes de Ruanda (ICTR) com base em Arusha na Tanzânia. Após uma década de trabalho 81 foram indiciados, 17 foram condenados e 1 absolvido. O grosso dos indiciamentos foi deixado para justiça de Ruanda. Em 1996 foi aprovada uma lei para punição de crimes de guerra. No fim de 2001 haviam 7.331 indiciados dos quais 6.500 foram condenados. É evidente que pelo tamanho do masacre a justiça formal não conseguiria julgar a todos nem em 100 anos. Assim o governo ressuscitou os tribunais locais chamados de Gacaca adicionando a estes as normas de jurisprudência.

Confrontando o passado

A educação é o caminho para seguir adiante. Os memoriais tem programas de educação para assegurar que as gerações futuras entendam os erros passados e para que tenham a chance de pensar sobre seus próprios valores e ações. “Nós precisamos aprender sobre o passado, nós também precisamos aprender com ele. O país está determinado em trabalhar para a reconciliação Primeiro nós temos que considerar o passado para tornar possível a reconciliação. Vítimas precisam se sentir seguras. Genocidas tem que prestar contas com a justiça, engajados em uma discussão aberta e honesta, adimitindo o ocorrido. Isto é fundamental para assegurar a confiança necessária para vivermos juntos. Em duas gerações destruímos a confiança mútua. No mínimo vamos levar mais duas gerações para restaurá-la. A confiança não será apressada.”

Todos estes relatos foram baseados na minha visita ao Memorial do Genocídio em Kigali. Neste mesmo dia ainda visitei a igreja de Nymata que serviu de refúgio para os tutsis perseguidos e foi palco de uma das maiores matanças do genocídio quando aproximadamente 10.000 pessoas foram mortas de uma só vez a golpes de facão e tiros.

Entrada da igreja de Nymata

Entrada da igreja de Nymata

Milhares de ossos para relembrar a tragédia na igreja de Nymata

Milhares de ossos para relembrar a tragédia na igreja de Nymata

Também conheci o famoso Hotel Ruanda que virou até filme, mas cujo nome verdadeiro é Hotel des Mille Collines e fica no centro de Kigali. Esta história foi um dos capítulos mais trágicos da Humanidade, mas nunca devemos esquecê-la para que também nunca mais volte a ocorrer.

Entrada do verdadeiro Hotel Ruanda

Entrada do verdadeiro Hotel Ruanda

Veja Também:

Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocídio – Kigali – Ruanda – Parte I

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Killing Fields – Camboja – Parte III

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Museu do Apartheid – África do Sul – Parte II

Três Lugares de Arrepiar os Cabelos – Auschwitz – Polônia – Parte I


Responses

  1. Muito bom o texto. Vc escreve muito bem! Aula de história de primeira. Nem sabia q tinha essa seção sobre lugares de arrepiar o cabelo. Gostaria se possível de mais textos sobre o assunto. Mesmo q vcs nao tenham visitado pessoalmente. Parabéns mais uma vez!

  2. […] Mais um Lugar de Arrepiar os Cabelos – Memorial do Genocidio – Kigali – Ruanda – Parte II […]


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