Publicado por: Eder & Fabi Rezende | 04/03/2012

A nem tão perigosa Nairobbery – Nairobi – Quênia

Chegamos ao Quênia vindos da Tanzânia. No ônibus que tomamos de Arusha a Nairobi encontramos vários gringos e claro todos com o mesmo “desodorante”, o Lonely Planet que não sai de baixo do braço. Só por curiosidade lemos o capítulo que falava de Nairobi. Dizia algo semelhante a: cidade muito perigosa, o que lhe rendeu o apelido de Nairobbery. A mesma conversa que escutamos em cada cidade que chegávamos no continente africano, por isso não demos muita importância aos conselhos da bíblia dos mochileiros.

O Quênia além de lar dos melhores corredores fundistas do mundo como Paul Tergat, também abriga alguns dos mais famosos safáris do planeta: Amboseli National Park, Lake Nakuru National Park e Lake Naivasha National Park além do renomado Masai Mara National Park. Nossos planos estavam traçados. Poderíamos passar os 10 dias no país entre os elefantes de Amboseli e os flamingos do Nakuru, mas não foi bem assim que tudo aconteceu.

Amboseli o safári que não fizemos

Depois de dois dias percorrendo todos os endereços de agências de viagens indicados por amigos percebemos que estas aventuras não sairiam nada em conta. Como já havíamos visto os mais variados animais pelos mais diversos países da África, desistimos dos safáris quenianos. Mas e agora o que fazer? 

Saímos do Parkside hotel, nossa casa em Nairobi, rumo ao escritório da Qatar Airways a poucos quarteirões de distância e decididos a resolver este problema, mas não sem antes pedir um conselho a recepcionista. Esta manifestação de estudantes na rua ao lado oferece algum perigo? O conselho foi desviarmos nossa rota alguns metros para passarmos longe na bagunça. Se conselho fosse bom ninguém dava, vendia. Seguindo esta máxima tomamos o caminho mais curto. A direita um batalhão de policiais da tropa de choque, a esquerda um bando de estudantes revoltados, ambos separados por dois quarteirões. No meio eu e a Fabi. Parece coisa de filme, mas no exato momento que cruzávamos entre os dois grupos estourou a confusão. A tropa de choque correu e nos alcançaria antes de atingir seu alvo, os manifestantes. Corremos para dentro de um shopping center e ainda ouvimos o barulho das balas de borracha quando saíamos pelo outro lado do prédio. Na companhia aérea logo descobrimos que as coisas não seriam tão fáceis. O preço da taxa de alteração de data dos bilhetes era bem mais caro que nossa estadia na cidade. Resultado: teríamos 10 longos dias de descanso forçado em Nairobi.

Escritório da Qatar nos deu férias forçadas em Nairobi

 A maior surpresa foi a manchete do jornal do dia seguinte: “Dois estudantes mortos em confronto com a polícia”. As balas supostamente de borracha eram na realidade balas letais. Mas será que o desodorante de gringo (Lonely Planet) tinha razão? Nairobi era mesmo uma Nairobbery? O lugar era realmente perigoso? Depois de alguns dias sem fazer nada a não ser perambular pela cidade sem ver mais nada ameaçador para olhos brasileiros, esquecemos o episódio.

Esta aparente tranqüilidade durou mais uns cinco dias até uma agradável noite de março. Dormíamos tranquilamente no quarto número 110 do Parkside hotel quando fui acordado por um barulho estranho e forte vindo dos andares superiores. Olhei para o lado e como sempre a Fabi nem se mexia. Mantive o silêncio e imediatamente pensei no episódio dos estudantes e nos conselhos da bíblia dos mochileiros. O ruído parecia ficar mais forte a medida que o tempo passava. Decidi acordar a Fabi para conversarmos. Ao ouvir os ruídos ela constatou na hora: estão assaltando o hotel. O ruído cada vez mais alto era das portas arrombadas e os assaltantes faziam o arrastão de cima para baixo, foi seu diagnóstico. Numa situação desta o que fazer?

Enfiamos passaportes, cartões de crédito e dinheiro vivo em uma sacola de supermercado e colocamos tudo na laje que havia do lado de fora da janela. Logo percebemos não ser uma boa idéia. Sem algo de valor para entregar, os ladrões poderiam se tornar violentos. Mas então deveríamos ficar entregues a própria sorte? Pensamos rápido e concluímos: sem vitimas não há assalto. Fomos parar no mesmo lugar dos passaportes, cartões de crédito e dinheiro. Bastou pular a janela e a laje era nosso único abrigo na madrugada de Nairobi. Nossas cabeças fervilhavam e da laje para a rua foi literalmente um pulo. Nosso plano: Fabi se abrigava dos meliantes na laje enquanto eu pulava de lá para uma placa de trânsito e escorregava para rua.

Esta laje foi nosso refúgio na madrugada de Nairobi

Sem muitas dificuldades cumpri a primeira parte do nosso plano de fuga, afinal estávamos no primeiro andar. Uma vez na rua pus em prática a segunda parte do plano. Espreitei pela porta de vidro da recepção do hotel e parecia tudo calmo, o recepcionista dormia. Ainda inseguro golpeie a porta e ele despertou num pulo. Abriu a porta de vidro esfregando os olhos e incrédulo no que via. E ainda sem acreditar perguntou: Como é que você foi parar ai? Minha resposta foi outra pergunta: O hotel está sendo assaltado? Claro que não. E de onde vem esta barulheira toda? Os quartos do último andar estão passando por reforma. Mas de madrugada? Sim, é o melhor horário para obras e nunca pensamos que alguém despertaria.

Depois de explicar como cheguei a rua, ainda levei uma bronca de mãe: é muito perigoso, você poderia ter quebrado a perna. Fiquei por alguns segundos pensando na palavra: perigoso, perigoso, perigoso…Voltei a rua apenas para avisar a Fabi do alarme falso e nos reencontramos no quarto após ela “repular” a janela. Esta noite não dormimos mais, excitados com nossa aventura vivida a poucos momentos.

Ficou a lição de mais uma experiência única de nossa viagem: nem tudo que parece é. Uma aparente manifestação estudantil pode acabar em morte e um mega assalto ao hotel não passou de uma inocente reforma de quartos. Apesar de poucos atrativos a capital queniana ficará para sempre em nossas memórias como Nairobi e deixamos a Nairobbery para as páginas do Lonely.

 

Veja Também:

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Viajar de Machimbombo é …

Marrakech – Os Encantos das Mil e Uma Noites


Responses

  1. Uau, que aventura!!

  2. Bem, deu para espantar o tédio!

  3. Vocês são realmente corajosos. Parece coisa de filme que nada, é um filme mesmo. No meio da confusão, se a câmara estivesse ligada, mesmo vocês correndo (Fabi corre muito?), tava feito o filme.
    Amigos, 10 dias a mais numa confusão dessas, vocês tem história pra contar. Parabéns e boa viagem.

    • Grande Walter

      podemos dizer que a aventura foi boa e não foram só estas contadas neste post, tiveram muitas mais.

      A Fabi corre para caramba e com medo então é igual ao The Flash, rsrsrs.

      grande abraço

      Eder

  4. Quando é que nosso diário de viagem, o blog VaConferir.com – vai fazer parte da relação dos Blogs de Viagem de vocês?

  5. hahaha, achei o maximo! Deve ter sido um momento tenso na hora, mas agora é engraçado imaginar os 2 “louquinhos” saindo pela janela do hotel sem nada estar acontecendo!😀 Pelo menos rendeu uma boa história!

    • Na hora deu o maior medão, mas até hoje quando relembramos mais esta peripécia nos acabamos de rir. Dá para ver como a mente humana é tão fértil e sugestionável.

      bjs

      Eder

  6. Putz…Nairobi e uma cidade complicada mesmo.
    Eu passei um ano la, e nda me aconteceu…nem um arranhao. Mas em compensacao todos os meus amigos foram assaltados ou roubados.

    Celulares foram tomados na minha frente, bolsas abertas no meio da multidao…ate os quenianos sofrem muito (mesmo os brancos sendo alvos faceis).

    E depois de varias manifestacoes eu so vi uma q foi pacifica e sem transtornos.

    Por mais q eu adore a cidade, e preciso muito cuidado e atencao. Voces fizeram certo em se precaver!!!

    • Grande Fabinho
      escrevi este post pensando em como era sua vida no Quênia. No mínimo era bem agitada.

      Apesar de tudo achamos que a propaganda dos perigos é muito maior que a realidade.

      Deve-se tomar cuidado, mas sem exageros.

      grande abraço

      Eder

  7. Nossa, que história inesquecível!! Adorei o post.

    • Olá Janaína
      ficamos super felizes que tenha gostado do post. Temos vários posts contando nossas aventuras pelo mundo como o post dos piores hóteis que já ficamos.

      esperamos te ver mais vezes em nosso blogs

      bjs

  8. […] muito o que fazer e mesmo assim colecionamos boas aventuras para contar. Quem não leu, leia o post A nem tão perigosa Nairobbery. Além de vivermos alguns dias dignos de Tintin, outros bem mais monótonos almoçando em […]

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  13. kkkkkkkkkkkkk
    (morrendo de rir da cara de vcs)🙂
    adorei!
    Claudia @pequenoviajante

    • Claúdia
      viu o que dá em ficar escutando a Fabi. Pago um mico desgraçado. Ainda escuto ela falando: É assalto, certeza.

      bom o que vale agora são as risadas.

      bjs

      Eder

  14. Gente, que medo e que mico!!!

    • Oi Adriana
      medo mesmo, mas o mico foi muito maior. Insuperável. Você pode imaginar a cara do recepcionista do hotel?

      valeu bjs

      Eder

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  18. Fui lendo e ficando tensa…!! Isso era bem mais do que um perrengue!
    Bjs

    • Oi Sut
      no final considero que ficou na categoria do perrengue mesmo, já que foi só um susto.

      bjs

      Eder

  19. Éder, eu morria nessa laje, rsrsrs.
    Que susto! O legitimo perrengue, rsrsrs

    • Olá Francine
      morrer eu não morria, mas podia ter quebrado um braço ou perna pulando dela.

      Por sorte foi só o susto mesmo.

      valeu

      Eder

  20. Quem iria pensar em reforma durante a madrugada???? Eu não pularia a janela, mas com certeza pensaria em assalto também!! bjs

    • Olá Débora
      realmente nem o mais criativo dos seres humanos pensaria em uma reforma durante a madrugada. Eu também não pensei em assalto, acho que este deve ser o raciocínio feminino, pois a Fabi tinha certeza que era assalto, rsrsrs.

      bjs
      Eder

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  30. Caramba gente! Fiquei super apreensiva aqui lendo o post! Que bom que no final foi só um susto! Acaba valendo pela experiência e tudo rende um aprendizado né!
    Beijos

    • Olá Monique

      realmente vale a experiência, mas o susto foi grande. Mais um que vivemos durante nossa Volta ao Mundo. Por sorte foram só sustos e voltamos sãos e salvos.

      bjs

      Eder

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  35. Olá, meu nome é Marya Jose,sou Brasileira e moro no Rio de Janeiro, tenho amigos na cidade de Nakuru,Quênia; Queridos eu nunca viajei para fora do País, e ultimamente ando pesquisando sobre tudo desde passaporte, permissão p/entrar no país até as bagagens, dinheiro etc…mais não gostaria de ir sozinha. até por se tratar da primeira viajem. vocês poderiam me orientar como fazer? ficarei grata por qualquer dica ate mesmo site, blogs etc. obrigado, aguardo respostas.

    • Maria
      você pode tentar conseguir uma companhia para ir com você (amiga, tia, prima ou qualquer outra pessoas). Peça a seus amigos que moram em Nakuru para ficarem te esperando no aeroporto quando chegar a Nairobi, assim você pod eviajar mais tranquila

      abs

      Eder

  36. […] Família Adriana Pasello, Diário de Viagem Francine Agnoletto, Viagens que Sonhamos Eder Rezende, Quatro Cantos do Mundo Eria Kovacs, Viagem com Gêmeos Debora Godoy Segnini, Gosto e Pronto Ludmyla De Sena Broniszewski, […]

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